A criança brinca de mundo, de vento, de sol, de luar, transforma um pedaço de nada numa coisa de espantar.
Uma caixa vira castelo, uma meia aprende a voar, um botão governa Saturno, um chinelo começa a cantar.
Sozinha, conversa com tudo, até com quem não sabe falar. Um boneco lhe conta segredos, uma pedra resolve dançar.
Leva para os seus personagens o mundo que mora em seu lar, a bronca, o beijo, o abraço, o que ouviu sem ninguém notar.
Mas basta chegar outra criança para a Lua mudar de lugar. O castelo já tem dois reinados e nenhum dos reis quer mandar!
Um inventa, o outro desmancha, um disputa, o outro quer paz. Se a brincadeira vira guerra, um abraço desfaz e refaz.
Tem dragão que provoca medo, tem pirata que aprende a chorar, tem princesa salvando gigantes, tem coragem com medo de entrar.
Tem quem ganha, quem perde, quem grita, quem prefere mudar de lugar. Tem quem descobre um amigo onde havia alguém para enfrentar.
E a criança vai se encontrando em cada mundo que faz, Descobre que pode ser tantas,
ser tudo o que imaginar,
sem deixar de ser quem é,
sem precisar se explicar.
Fala com mãos e caretas, com os pés, com os olhos, com o chão. Desenha palavras no vento, faz poesia sem lápis na mão.
Primeiro usa o brinquedo seguindo a instrução, mas logo logo reinventa numa nova criação.
Mas o mundo anda apressado, quer medir até a imaginação. Quer saber quanto vale um sorriso, quantos pontos tem uma invenção.
Quer que a infância fique sentada, que o silêncio aprenda a marchar, que a pergunta levante o dedo antes mesmo de perguntar.
E a criança, danada de esperta, faz da régua um escorregador, põe o zero para girar e o alfabeto num disco voador.
A escola abre suas janelas, deixa a curiosidade entrar. A matemática vira amarelinha, a leitura convida a sonhar.
Uma pergunta puxa outra, uma resposta começa a correr, e até o erro, de tão divertido, quer brincar de acontecer.
Que a escola não guarde os brinquedos quando o aprender começar. Nem peça à criança que escolha entre descobrir e brincar.
Que o mundo respeite esse tempo, esse jeito tão livre de ser, em que o corpo inventa caminhos e a alegria faz acontecer.
Pois enquanto os adultos discutem qual a melhor forma de ensinar, uma criança, montada num sonho, já descobriu como voar.
E se alguém lhe perguntar o que aprendeu nessa viagem, ela aponta para uma formiga carregando uma folha na bagagem.
Depois sai correndo, sorrindo, com mil universos para explorar.
Porque a infância não tem tempo de parar de brincar só para aprender a aprender.
E a escola, se quiser ajudar, também precisa aprender a brincar!