Mas a ausência dói
porque o amor também tem seus egoísmos.
A gente quer mais.
Mais uma conversa.
Mais um conselho.
Mais um abraço.
Mais um domingo.
Mais uma chance de dizer
o que deixou para depois.
Mesmo quando o outro
já deu tudo o que podia.
Já caminhou conosco
o trecho que lhe cabia.
Já deixou palavras,
gestos,
histórias,
aprendizados,
silêncios
e pedaços de si
morando em nós.
Mas quase nunca basta.
Queremos que fique.
Que responda.
Que continue disponível
para as nossas perguntas,
nossas carências,
nossos medos.
Fazemos isso a vida inteira.
Queremos dos filhos
o que eles não podem dar.
Dos pais,
o que talvez nunca souberam oferecer.
Dos amores,
o que não lhes pertence.
Dos amigos,
uma presença
que às vezes já não cabe.
E até de quem partiu
continuamos querendo alguma coisa.
Como se amar
nos desse direito
à permanência.
Não dá.
Amar também é compreender
que o outro não veio
para preencher todos os nossos vazios.
Veio para caminhar conosco
enquanto podia,
enquanto queria,
enquanto a vida permitiu.
E, às vezes,
quando ainda achamos
que nos deve presença,
ele já cumpriu sua parte.
Talvez a saudade doa tanto
porque custa aceitar
que o amor pode continuar
mesmo quando o outro
já não pode mais nos dar nada.
Nem resposta.
Nem colo.
Nem tempo.
Nem presença.
E então sobra para nós
a parte mais difícil do amor:
receber o que ficou
sem continuar cobrando
o que não pode mais vir.
Porque, às vezes,
o que recebemos
já era tudo.
E era muito.