As orquídeas estão invadindo o Rio.
Sem sirene.
Sem anúncio.
Sem pedir licença.
Tomaram árvores,
muros,
varandas,
quintais
e até a distração da gente.
Uma branca aparece aqui.
Uma lilás se pendura ali.
Outra resolve exagerar
e abre cinquenta flores
como quem diz
olha direito.
É a primavera chegando.
E primavera não combina
com economia de beleza.
As orquídeas sabem disso.
Passam meses quietas,
quase esquecidas,
agarradas num tronco,
guardando alguma coisa
que ninguém consegue ver.
Até que um dia
florescem.
E pronto.
A árvore velha vira jardim.
O muro vira cenário.
A rua ganha poesia.
E quem estava com pressa
diminui o passo.
Orquídea é uma espécie
de professora sem quadro.
Ensina que nem toda raiz
precisa estar enterrada.
Que apoio
não é dependência.
Que viver junto
não significa roubar
a vida do outro.
Que beleza também exige tempo.
E principalmente
que ninguém floresce
o ano inteiro.
O humano anda meio esquecido disso.
Quer resultado em janeiro,
resposta em fevereiro,
sucesso até março
e felicidade parcelada
no cartão.
A orquídea não.
Ela fica.
Cria raiz no improvável.
Conversa com a chuva.
Espera a luz certa.
Economiza espetáculo.
Até chegar setembro
e resolver aprontar.
Então floresce
sem perguntar
se alguém está preparado.
E talvez seja isso
que essa invasão esteja dizendo.
Que a vida continua
fabricando beleza
mesmo quando a gente
anda ocupado demais
fabricando problemas.
As orquídeas estão invadindo o Rio.
Tomara que consigam.
Tomara que ocupem
as árvores,
as janelas,
as praças,
os olhos.
E, se sobrar espaço,
a gente.