Estou sentado
sem precisar chegar.
A madeira da espreguiçadeira
me recebe,
Mônica está ao lado,
o mar está na frente
e isso, por enquanto,
parece suficiente.
Fui ver o Illusionist.
Vinte e nove pés de sonhos
amarrados ao cais,
esperando o vento
lembrar que barco
não nasceu para ficar parado.
Está tudo bem com ele.
Comigo também.
Quer dizer...
o corpo reclama aqui e ali,
cobra seus sessenta e tantos anos,
faz barulho nas dobradiças,
mas a alma hoje
não está interessada em reclamações.
Ela olha essa água
e sorri.
Tem uma palmeira
plantada no meio da paisagem
como quem decidiu
que lugar improvável
também pode ser casa.
Atrás dela,
barcos.
Mais atrás,
a montanha.
E sobre a montanha
uma nuvem enorme
fazendo mistério
com aquilo que não precisa
ser explicado.
Daqui a pouco
a gente vai embora.
Voltar pra casa.
Engraçado isso.
A gente sai de casa
para encontrar lugares
que também parecem casa
e depois volta
carregando um pouco deles.
Hoje levo o mar.
Levo o Illusionist.
Levo essa montanha
escondida.
Levo Mônica aqui do lado.
Levo até essa dorzinha no corpo,
porque ela também diz
que eu estive aqui.
Vivo.
Presente.
Feliz.
Estamos indo de volta pra casa.
Mas por enquanto...
por enquanto,
deixa o mar ficar.