A flor não pergunta ao tempo
se já é hora de nascer.
Ela rompe a terra,
empurra o escuro,
estica o corpo miúdo e vai.
Sem mapa.
Sem certeza.
Sem saber se amanhã o vento vem forte
ou se a chuva esquece o caminho.
Ela floresce.
E talvez seja isso que a primavera tenta contar
sem dizer palavra alguma.
Que esperança não é ficar na janela
esperando o jardim acontecer.
Esperança é semente com atitude.
É sujar a mão de terra,
regar o que ainda não apareceu,
confiar no invisível e continuar cuidando.
Esperançar é plantar quando ninguém vê flor.
É insistir no verde quando tudo parece seco.
É perceber que até a árvore vazia
guarda dentro de si uma primavera em preparação.
Gosto disso.
Da ideia de que a vida não precisa estar pronta
para começar a florescer.
Basta um broto.
Uma fresta.
Um pequeno movimento na direção da luz.
Porque primavera não acontece apenas no calendário.
Às vezes...
ela começa dentro da gente.
Quando uma ideia acorda.
Quando um sonho volta.
Quando a coragem dá sinal.
Quando a gente decide que ainda vale plantar.
E então...
quase sem perceber,
a vida inteira começa a criar flores.