A gente pode passar décadas construindo um amor e, num instante, descobrir que ainda carrega dentro de si monstros capazes de feri-lo.
É uma descoberta dolorosa.
Porque seria mais fácil acreditar que o tempo nos melhora por completo. Que os anos, as conversas, os abraços, as viagens, as brigas superadas e todas as manhãs divididas fossem suficientes para domesticar tudo aquilo que carregamos de pesado.
Mas não são.
A gente envelhece e algumas coisas envelhecem junto.
Medos antigos. Ego. Impulsos. Vaidades. Silêncios. Jeitos ruins de enfrentar a dor. Vícios de comportamento que aprendemos não se sabe onde e continuamos repetindo mesmo quando juramos que já não somos aquela pessoa.

E então, num instante, um desses monstros escapa.
E machuca justamente quem a gente menos queria machucar.
Não há beleza nisso.
Nem desculpa.
O amor não transforma erro em acerto só porque existia amor quando erramos.
Talvez a parte mais difícil seja permanecer diante do espelho depois. Reconhecer naquele reflexo a mesma pessoa que ama e a mesma pessoa que feriu. Sem escolher apenas uma delas para contar a história.
Somos as duas.
Carregamos coisas bonitas e coisas pesadas. Somos capazes de cuidado e também de descuido. Construímos durante anos e, assustadoramente, podemos atingir essa construção com nossas próprias mãos.
Depois vem a vontade de consertar.
Mas vontade não é conserto.
É só vontade.
E há feridas que continuam abertas enquanto a gente aprende, tarde demais ou não, que amar alguém também deveria significar cuidar dos monstros que levamos para perto dela.
Talvez seja isso que reste agora.
Olhar para eles.
Sem escondê-los.
Sem alimentá-los.
Sem fingir que não são nossos.