Quebranto não é tristeza.
Mas pode morar perto.
Às vezes na casa ao lado,
às vezes no mesmo quarto,
às vezes dentro dela
sem pagar aluguel.
Quebranto é quebra?
Se for, quebra o quê?
O riso?
O medo?
A coragem?
A certeza?
Ou quebra justamente
essa tristeza inteira
que resolveu acreditar
que seria para sempre?
Porque tristeza também quebra.
Ainda bem.
Pode ser quebrada por um abraço,
uma notícia,
uma chegada,
uma partida também,
um vento besta na janela,
uma música fora de hora,
um café,
um silêncio,
um alguém.
E até por nada.
Aliás, principalmente por nada.
Um dia a gente acorda
e aquilo ainda está ali,
mas já não está do mesmo tamanho.
Quebrou um pedacinho.
Depois outro.
Então vem o quebranto
do próprio quebranto.
O quebranto que se quebra
ao ser quebrantado.
Complicou?
Claro.
Coisa quebrada
raramente mantém
a forma que tinha.
Ainda bem.
Porque tristeza também muda de forma.
E quando muda de forma,
muda de lugar.
A gente anda.
Ela anda.
A vida anda.
Às vezes juntos.
Às vezes cada um para um lado.
Até que num desses movimentos
a gente percebe
que já está rindo
sem ter decidido rir.
E pronto.
Quebrou de novo.
Só que dessa vez
foi o quebranto.
Quebranto quebrado.
Tururu...
E seguimos.