Márcio Cerbella – Inspiração e Estratégia
Conteúdos que despertam a criatividade, desafiam limites e impulsionam a inovação.
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Textos

Normal

Acordar.

Abrir a janela.

O céu no lugar.

A árvore no lugar.

A casa no lugar.

O coração...

Bem,

o coração nunca respeitou muito

essa história de lugar.

Normal.

Duas pernas para uma cadeira.

Não.

Quatro.

Viu?

Até o normal

precisa ser conferido.

Oito horas.

Segunda-feira.

Café.

Trânsito.

Bom dia sem olhar nos olhos.

Tudo absolutamente normal.

Que perigo.

A água corre para baixo.

A fumaça sobe.

O vento...

O vento faz o que quer.

Ainda bem.

Alguém precisava estragar

essa organização toda.

Normal é uma palavra engraçada.

Parece régua.

Mede.

Compara.

Risca uma linha

e depois pergunta

quem ficou do lado errado.

Errado?

Uma árvore torta

continua dando sombra.

Um rio faz curvas

e chega ao mar.

A montanha não tem elevador.

A neve afunda os pés

de quem imaginava caminhar sobre ela.

O barco inclina.

A vela estala.

O vento muda.

E ninguém acusa o oceano

de comportamento inadequado.

Normal.

Talvez seja apenas

o nome que damos

ao que aconteceu muitas vezes

sem que fizéssemos perguntas.

O sol nasceu ontem.

Nasceu hoje.

Normal.

Experimente amanhã

ele não nascer.

Pronto.

O normal virou milagre.

Respirar.

Normal.

Andar.

Normal.

Ter alguém esperando.

Normal.

Uma voz conhecida do outro lado.

Normal.

A mesa ocupada.

Normal.

Até deixar de ser.

Então tudo aquilo

que mal merecia atenção

ganha nome.

Saudade.

Falta.

Ausência.

Memória.

E o normal

fica extraordinariamente bonito

depois que acaba.

Estranho.

Passamos metade da vida

querendo fugir dele

e outra metade

tentando reconstruir algum.

Uma casa.

Um trabalho.

Um amor.

Uma rotina.

Um domingo qualquer.

Qualquer.

Outra palavra perigosa.

Nenhum domingo é qualquer

para quem sabe

que domingos acabam.

O normal também protege.

Nem toda parede é prisão.

Algumas seguram o teto.

Nem toda rotina adormece.

Algumas permitem descansar.

Nem toda repetição é desperdício.

O mar repete ondas

há milhões de anos

e ninguém parece entediado.

Mas existe outro normal.

O que aperta.

O que enquadra.

O que aponta.

O que cochicha.

O que diz

sempre foi assim.

Esse merece desconfiança.

Sempre

é tempo demais.

Foi normal proibir.

Foi normal excluir.

Foi normal calar.

Foi normal olhar para o absurdo

e chamá-lo de costume.

Costume.

Primo bem vestido

da acomodação.

Nem tudo que se repete

merece continuar.

Um filtro.

Olha de novo.

A água parece suja.

Ainda existe água limpa.

Uma janela.

Abre.

O vento entra.

Bagunça os papéis.

Ótimo.

Alguma coisa precisava sair do lugar.

Nada?

Nada também acontece.

Já sabemos.

Então não fazer

porque ninguém faz,

não dizer

porque ninguém diz,

não mudar

porque sempre foi assim

também constrói o mundo.

Só que sem parecer construção.

Normal.

Uma criança desenha

uma árvore azul.

Alguém corrige.

Verde.

Por quê?

Porque árvore é verde.

A criança olha pela janela.

Outono.

A árvore está amarela.

Ponto para a criança.

A vida tem esse hábito inconveniente

de desobedecer nossas definições.

Pessoas mudam.

Corpos mudam.

Ideias mudam.

Cidades mudam.

Amores mudam.

Até pedras mudam,

só têm mais paciência.

E talvez o normal

não seja ficar.

Nem partir.

Nem vencer.

Nem perder.

Nem caber.

Nem escapar.

Talvez o normal

seja movimento.

Não.

Outra vez querendo definir.

Deixa.

O normal não precisa

de uma conclusão.

Precisa de uma pergunta.

Quando alguém disser

isso é normal,

olhe outra vez.

Pode ser.

Pode não ser.

Pode ser maravilhoso.

Pode ser terrível.

Pode ser apenas terça-feira.

E terça-feira,

dependendo de quem acordou,

de quem ficou,

de quem partiu,

de quem resolveu abrir a janela,

pode ser o dia mais normal do mundo.

Ou o primeiro

em que alguma coisa

finalmente

saiu do normal.

Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 20/08/2026
Alterado em 22/08/2026
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