Acordar.
Abrir a janela.
O céu no lugar.
A árvore no lugar.
A casa no lugar.
O coração...
Bem,
o coração nunca respeitou muito
essa história de lugar.
Normal.
Duas pernas para uma cadeira.
Não.
Quatro.
Viu?
Até o normal
precisa ser conferido.
Oito horas.
Segunda-feira.
Café.
Trânsito.
Bom dia sem olhar nos olhos.
Tudo absolutamente normal.
Que perigo.
A água corre para baixo.
A fumaça sobe.
O vento...
O vento faz o que quer.
Ainda bem.
Alguém precisava estragar
essa organização toda.
Normal é uma palavra engraçada.
Parece régua.
Mede.
Compara.
Risca uma linha
e depois pergunta
quem ficou do lado errado.
Errado?
Uma árvore torta
continua dando sombra.
Um rio faz curvas
e chega ao mar.
A montanha não tem elevador.
A neve afunda os pés
de quem imaginava caminhar sobre ela.
O barco inclina.
A vela estala.
O vento muda.
E ninguém acusa o oceano
de comportamento inadequado.
Normal.
Talvez seja apenas
o nome que damos
ao que aconteceu muitas vezes
sem que fizéssemos perguntas.
O sol nasceu ontem.
Nasceu hoje.
Normal.
Experimente amanhã
ele não nascer.
Pronto.
O normal virou milagre.
Respirar.
Normal.
Andar.
Normal.
Ter alguém esperando.
Normal.
Uma voz conhecida do outro lado.
Normal.
A mesa ocupada.
Normal.
Até deixar de ser.
Então tudo aquilo
que mal merecia atenção
ganha nome.
Saudade.
Falta.
Ausência.
Memória.
E o normal
fica extraordinariamente bonito
depois que acaba.
Estranho.
Passamos metade da vida
querendo fugir dele
e outra metade
tentando reconstruir algum.
Uma casa.
Um trabalho.
Um amor.
Uma rotina.
Um domingo qualquer.
Qualquer.
Outra palavra perigosa.
Nenhum domingo é qualquer
para quem sabe
que domingos acabam.
O normal também protege.
Nem toda parede é prisão.
Algumas seguram o teto.
Nem toda rotina adormece.
Algumas permitem descansar.
Nem toda repetição é desperdício.
O mar repete ondas
há milhões de anos
e ninguém parece entediado.
Mas existe outro normal.
O que aperta.
O que enquadra.
O que aponta.
O que cochicha.
O que diz
sempre foi assim.
Esse merece desconfiança.
Sempre
é tempo demais.
Foi normal proibir.
Foi normal excluir.
Foi normal calar.
Foi normal olhar para o absurdo
e chamá-lo de costume.
Costume.
Primo bem vestido
da acomodação.
Nem tudo que se repete
merece continuar.
Um filtro.
Olha de novo.
A água parece suja.
Ainda existe água limpa.
Uma janela.
Abre.
O vento entra.
Bagunça os papéis.
Ótimo.
Alguma coisa precisava sair do lugar.
Nada?
Nada também acontece.
Já sabemos.
Então não fazer
porque ninguém faz,
não dizer
porque ninguém diz,
não mudar
porque sempre foi assim
também constrói o mundo.
Só que sem parecer construção.
Normal.
Uma criança desenha
uma árvore azul.
Alguém corrige.
Verde.
Por quê?
Porque árvore é verde.
A criança olha pela janela.
Outono.
A árvore está amarela.
Ponto para a criança.
A vida tem esse hábito inconveniente
de desobedecer nossas definições.
Pessoas mudam.
Corpos mudam.
Ideias mudam.
Cidades mudam.
Amores mudam.
Até pedras mudam,
só têm mais paciência.
E talvez o normal
não seja ficar.
Nem partir.
Nem vencer.
Nem perder.
Nem caber.
Nem escapar.
Talvez o normal
seja movimento.
Não.
Outra vez querendo definir.
Deixa.
O normal não precisa
de uma conclusão.
Precisa de uma pergunta.
Quando alguém disser
isso é normal,
olhe outra vez.
Pode ser.
Pode não ser.
Pode ser maravilhoso.
Pode ser terrível.
Pode ser apenas terça-feira.
E terça-feira,
dependendo de quem acordou,
de quem ficou,
de quem partiu,
de quem resolveu abrir a janela,
pode ser o dia mais normal do mundo.
Ou o primeiro
em que alguma coisa
finalmente
saiu do normal.