A gente olha uma fotografia antiga e sorri.
Olha um vídeo de anos atrás e pensa
“Como a gente era feliz...”
Conta uma viagem que deu errado, uma aventura meio maluca, uma noite que terminou onde ninguém imaginava, uma dificuldade que parecia enorme. E conta rindo.
Engraçado isso.
Porque nem tudo que hoje virou uma boa história foi bom enquanto acontecia.
Teve medo.
Teve aperto.
Teve dinheiro curto.
Teve discussão.
Teve cansaço.
Teve erro.
Teve derrota.
Teve coisa que, naquele momento, a gente queria que acabasse logo.
Acabou.
E hoje a gente conta.
Às vezes com os olhos brilhando.
O tempo tem dessas coisas. Não muda o que aconteceu, mas muda o lugar de onde a gente olha.
E talvez esteja aí uma pequena armadilha.
A gente aprende a sentir saudade do que viveu, mas nem sempre aprende a perceber o que está vivendo.
O passado vai ficando bonito porque conhecemos o final da história. O presente não. O presente ainda está acontecendo. Tem bagunça, dúvida, boleto, expectativa, erro, acerto, gente chegando, gente partindo, planos dando certo e outros mostrando que tinham vontade própria.
E é justamente aqui que a vida está.
Não naquela viagem maravilhosa de dez anos atrás.
Não naquela festa inesquecível.
Não no tempo em que os filhos eram pequenos, em que o corpo era outro, em que havia mais cabelo, menos boletos ou qualquer outra vantagem que nossa memória resolveu conceder ao passado.
A vida está aqui.
Hoje.
E ser feliz hoje não significa achar tudo maravilhoso.
Não significa rir das derrotas enquanto elas doem ou agradecer imediatamente por cada pedra que aparece no caminho.
Felicidade não precisa ser uma anestesia.
Posso estar triste e continuar amando a vida.
Posso errar e continuar querendo caminhar.
Posso perder e descobrir alguma coisa.
Posso atravessar um momento difícil sem precisar transformar toda a minha existência em um momento difícil.
Sou feliz hoje.
No simples e no complexo.
Nas vitórias e nas derrotas.
Nos erros e nos acertos.
Nas coisas que compreendo e até naquelas que ainda não faço a menor ideia do que vieram fazer por aqui.
Porque algumas delas, daqui a alguns anos, estarão numa mesa qualquer, entre amigos, acompanhadas de uma gargalhada e de um
“Você lembra daquele dia?”
E vou lembrar.
Vou contar.
Provavelmente vou aumentar um pouquinho a história, porque memória também gosta de uma boa produção.
E alguém vai dizer
“Puxa, vocês viveram paca!”
Vivemos.
Ou não.
Mas vivemos.
Então não quero esperar dez anos para descobrir que hoje também era um tempo bom.
Um brinde ao que passou.
Outro ao que virá.
Mas o copo que está na minha mão é o de agora.
Um brinde.
E seguimos...