Se está posto,
não é nada.
Se está feito,
nada a fazer.
Se está decidido,
nada a decidir.
Se está declarado,
nada a declarar.
Nada consta.
Nada impede.
Nada muda.
Nada demais.
Que palavra tranquila.
Quatro letras
sentadas no sofá
assistindo o mundo acontecer.
Nada.
Uma porta não aberta.
Um telefone que não toca.
A palavra que ficou na boca.
O abraço guardado para depois.
A chuva caindo
e ninguém olhando pela janela.
Nada aconteceu.
Será?
Um barco parado
também viaja com a maré.
Uma vela recolhida
também escolhe um destino.
O vento passou.
Nada feito.
A montanha continuou lá.
A neve derreteu.
A estrada seguiu para algum lugar
sem perguntar quem ficou.
Nada decidido.
E o tempo,
esse sujeito inconveniente,
decidiu tudo.
Nada de resultado.
Estranho.
Porque o nada também dá resultado.
Não plantar
é uma espécie de colheita.
Não dizer
também deixa palavras.
Não escolher
é uma escolha com roupa de domingo.
Não partir
muda a viagem.
Não chegar
muda alguém que esperava.
Não fazer nada pelo que se quer
é entregar ao acaso
a procuração do próprio desejo.
Assina aqui.
Nada.
Pronto.
O mundo continua.
Continua muito bem, aliás.
Sem pedir opinião.
O mar sobe.
O mar desce.
A fruta amadurece.
A casa envelhece.
A criança cresce.
O corpo muda.
O amor aprende coisas estranhas.
E alguém ainda acredita
que não aconteceu nada.
Aconteceu o nada.
E às vezes
o nada é devastador.
Uma ausência no lugar exato
onde uma presença salvaria.
Um silêncio
onde duas palavras bastavam.
Uma mão que não se estendeu.
Um passo que não aconteceu.
Um pedido que dormiu
até perder o endereço.
Nada.
Nenhum estrondo.
Nenhuma sirene.
Nenhuma manchete.
Só algumas coisas
desmoronando baixinho.
Talvez seja esse
o grande truque do nada.
Parecer inofensivo.
Não ocupar espaço.
Não fazer barulho.
Não deixar impressões digitais.
E ainda assim
mudar destinos,
fechar caminhos,
separar margens,
envelhecer sonhos.
Nada acontece?
Claro que acontece.
Às vezes acontece tudo.
Só que ninguém fez nada.
E depois,
quando já está posto,
feito,
decidido,
declarado,
resta aquela frase pequena,
quase preguiçosa,
quase inocente,
nada a fazer.
Nada?
Pois é.
Era justamente isso
que não deveria ter sido feito.