Márcio Cerbella – Inspiração e Estratégia
Conteúdos que despertam a criatividade, desafiam limites e impulsionam a inovação.
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Textos

O vento

O vento não sabe para onde vai.

A vela também não.

Mesmo assim

o barco anda.

Talvez seja uma péssima maneira de começar qualquer explicação.

Melhor.

Solta a corda.

Há dias em que o mar cabe inteiro entre duas mãos.

Em outros não cabe nem o medo.

Uma rajada.

O pano estala.

A proa escolhe um lado

antes que alguém tenha certeza.

Certeza é uma coisa muito confortável para quem está no cais.

No mar ela molha.

Uma ilha aparece no horizonte.

Já estava lá.

Quase tudo que encontramos

já estava em algum lugar

antes de receber nosso espanto.

Areia.

Pedra.

Trilha.

Outra pedra.

Um bambuzal fazendo barulho

sem precisar de plateia.

Micos.

Bananeiras.

Uma laranja no caminho.

O mundo oferecendo coisas

sem formulário de inscrição.

Come.

Segue.

A montanha não diminui

porque alguém decidiu subi-la.

Que bom.

Seria uma vitória muito sem graça.

Três mil metros.

Um pouco mais.

O ar diferente.

A neve na mão.

Branca demais para tanta coisa que já se sabe.

A mão aperta.

Vira água.

Pronto.

Uma montanha inteira

explicada por uma gota.

Não.

Não explicou nada.

Melhor assim.

Um passo.

Afunda.

Outro.

Afunda mais.

A neve tem esse jeito elegante de lembrar às pernas

que elas não mandam em tudo.

Levanta.

Ri.

Continua.

Embaixo o mundo parece pequeno.

Não é.

Distância também engana.

Roma cabe numa fotografia.

Nápoles cabe numa palavra.

Toscana cabe numa taça.

Calábria cabe numa saudade

que ainda nem aconteceu.

Nenhuma delas cabe.

Estradas fazem curvas porque chegar reto seria desperdício de paisagem.

Pisa.

Lucca.

Siena.

Uma praça.

Um café.

Uma porta antiga.

Uma senhora atravessando a rua com uma sacola de pão.

E de repente isso também é importante.

Por quê?

Porque aconteceu.

Talvez bastasse.

Não basta.

Continua.

Existe um teleférico subindo

enquanto alguma coisa dentro

prefere ficar.

Sobe também.

Existe um barco saindo

enquanto alguma coisa no cais

pede permanência.

Vai.

Existe sempre alguma coisa

querendo ficar quando outra precisa partir.

O mundo foi construído

com esse defeito.

Ou essa beleza.

Difícil saber.

Maré cheia.

Maré vazia.

Nenhuma delas pede desculpas.

Uma trilha percorrida cem vezes nunca é a mesma trilha.

Choveu.

Caiu uma árvore.

Alguém colocou uma placa.

Alguém arrancou a placa.

Nasceu uma flor num lugar inconveniente.

Passa por ela.

Não.

Volta.

Olha.

Agora passa.

Talvez fazer do mundo um lugar melhor seja uma frase grande demais.

Milhões de pessoas.

Grande demais.

Uma pessoa.

Ainda enorme.

Um gesto.

Agora cabe na mão.

A mesma mão

que segurou neve.

Que puxou uma corda.

Que tocou pedra.

Que apontou o horizonte.

Que segurou outra mão.

Que também soltou.

Tudo escapa um pouco.

Água.

Tempo.

Gente.

Certezas.

A juventude.

Os barcos.

Alguns voltam.

A juventude não.

Ainda bem.

Seria insuportável

ter que aprender tudo outra vez.

Embora se aprenda.

Tudo outra vez.

Errado de outro jeito.

O caminho sobe.

Desce.

Desaparece.

Vira mato.

Ótimo.

Agora começa a parte

que o mapa não sabe.

Potencial.

Propósito.

Destino.

Palavras enormes

para quem está apenas fazendo não escorregar numa pedra molhada.

Escorrega.

Pronto.

O universo não acabou.

O joelho talvez reclame.

O universo não.

Continua.

Existem lugares ruins

com janelas maravilhosas.

Pessoas difíceis

com histórias bonitas.

Águas turvas

carregando água limpa.

Pedras no caminho

que servem para sentar.

Nem tudo precisa ser vencido.

Uma montanha

também pode ser contemplada.

Uma estrada

pode ser abandonada.

Uma viagem

pode não levar a lugar algum

e ainda assim

levar.

Estranho.

Como o vento.

Como a vela.

Como alguém olhando o mar

sem precisar entender o mar.

A noite chega.

Alguma luz acende do outro lado.

Não é resposta.

É só uma luz.

Mas às vezes

é exatamente disso

que se precisa

para continuar navegando...

Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 16/08/2026
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