O vento não sabe para onde vai.
A vela também não.
Mesmo assim
o barco anda.
Talvez seja uma péssima maneira de começar qualquer explicação.
Melhor.
Solta a corda.
Há dias em que o mar cabe inteiro entre duas mãos.
Em outros não cabe nem o medo.
Uma rajada.
O pano estala.
A proa escolhe um lado
antes que alguém tenha certeza.
Certeza é uma coisa muito confortável para quem está no cais.
No mar ela molha.
Uma ilha aparece no horizonte.
Já estava lá.
Quase tudo que encontramos
já estava em algum lugar
antes de receber nosso espanto.
Areia.
Pedra.
Trilha.
Outra pedra.
Um bambuzal fazendo barulho
sem precisar de plateia.
Micos.
Bananeiras.
Uma laranja no caminho.
O mundo oferecendo coisas
sem formulário de inscrição.
Come.
Segue.
A montanha não diminui
porque alguém decidiu subi-la.
Que bom.
Seria uma vitória muito sem graça.
Três mil metros.
Um pouco mais.
O ar diferente.
A neve na mão.
Branca demais para tanta coisa que já se sabe.
A mão aperta.
Vira água.
Pronto.
Uma montanha inteira
explicada por uma gota.
Não.
Não explicou nada.
Melhor assim.
Um passo.
Afunda.
Outro.
Afunda mais.
A neve tem esse jeito elegante de lembrar às pernas
que elas não mandam em tudo.
Levanta.
Ri.
Continua.
Embaixo o mundo parece pequeno.
Não é.
Distância também engana.
Roma cabe numa fotografia.
Nápoles cabe numa palavra.
Toscana cabe numa taça.
Calábria cabe numa saudade
que ainda nem aconteceu.
Nenhuma delas cabe.
Estradas fazem curvas porque chegar reto seria desperdício de paisagem.
Pisa.
Lucca.
Siena.
Uma praça.
Um café.
Uma porta antiga.
Uma senhora atravessando a rua com uma sacola de pão.
E de repente isso também é importante.
Por quê?
Porque aconteceu.
Talvez bastasse.
Não basta.
Continua.
Existe um teleférico subindo
enquanto alguma coisa dentro
prefere ficar.
Sobe também.
Existe um barco saindo
enquanto alguma coisa no cais
pede permanência.
Vai.
Existe sempre alguma coisa
querendo ficar quando outra precisa partir.
O mundo foi construído
com esse defeito.
Ou essa beleza.
Difícil saber.
Maré cheia.
Maré vazia.
Nenhuma delas pede desculpas.
Uma trilha percorrida cem vezes nunca é a mesma trilha.
Choveu.
Caiu uma árvore.
Alguém colocou uma placa.
Alguém arrancou a placa.
Nasceu uma flor num lugar inconveniente.
Passa por ela.
Não.
Volta.
Olha.
Agora passa.
Talvez fazer do mundo um lugar melhor seja uma frase grande demais.
Milhões de pessoas.
Grande demais.
Uma pessoa.
Ainda enorme.
Um gesto.
Agora cabe na mão.
A mesma mão
que segurou neve.
Que puxou uma corda.
Que tocou pedra.
Que apontou o horizonte.
Que segurou outra mão.
Que também soltou.
Tudo escapa um pouco.
Água.
Tempo.
Gente.
Certezas.
A juventude.
Os barcos.
Alguns voltam.
A juventude não.
Ainda bem.
Seria insuportável
ter que aprender tudo outra vez.
Embora se aprenda.
Tudo outra vez.
Errado de outro jeito.
O caminho sobe.
Desce.
Desaparece.
Vira mato.
Ótimo.
Agora começa a parte
que o mapa não sabe.
Potencial.
Propósito.
Destino.
Palavras enormes
para quem está apenas fazendo não escorregar numa pedra molhada.
Escorrega.
Pronto.
O universo não acabou.
O joelho talvez reclame.
O universo não.
Continua.
Existem lugares ruins
com janelas maravilhosas.
Pessoas difíceis
com histórias bonitas.
Águas turvas
carregando água limpa.
Pedras no caminho
que servem para sentar.
Nem tudo precisa ser vencido.
Uma montanha
também pode ser contemplada.
Uma estrada
pode ser abandonada.
Uma viagem
pode não levar a lugar algum
e ainda assim
levar.
Estranho.
Como o vento.
Como a vela.
Como alguém olhando o mar
sem precisar entender o mar.
A noite chega.
Alguma luz acende do outro lado.
Não é resposta.
É só uma luz.
Mas às vezes
é exatamente disso
que se precisa
para continuar navegando...