Tem pai que a gente chama de pai.
E tem uns sujeitos meio malucos
que a vida coloca no caminho
e só muito tempo depois
a gente percebe
aquilo também era paternidade.
Alfredo Mandarino,
meu cunhado,
quase irmão,
foi também, em alguns momentos,
um pouco meu pai.
Botafoguense.
Ninguém é perfeito.
Mas quase irmão,
quase pai,
companheiro de estrada,
presença dessas que vão ocupando espaços
sem precisar pedir licença.
Porque essas coisas não respeitam muito
a árvore genealógica.
Afeto nunca foi bom de organograma.
E teve um tal de Paulo Viveiros.
Paulo Careca.
Esse então...
Era tio.
Mas pensando bem,
era pai tio.
Ou tio pai.
Desafiava.
Brincava junto.
Construía coisas.
Inventava histórias malucas.
Fazia rir.
Nem sempre era o melhor exemplo do mundo.
Também nem sempre sabia
devolver carinho com carinho.
Mas amizade ele sabia.
Brincadeira ele sabia.
Construção ele sabia.
Criatividade...
Ah, isso ele sabia pra cacete.
E tinha Giovanni.
Outro tio.
Outra referência.
Outro sujeito que ajudou a construir
um pedaço deste aqui.
Careca e Giovanni, inclusive,
cometeram uma das maiores interferências
na minha formação.
Fizeram um menino cercado de vascaínos
virar Flamengo.
Isso não é pouca coisa.
Jurany vascaíno.
Elair vascaíno.
E os dois tios ali,
trabalhando silenciosamente
pela salvação rubro-negra da criança.
Deu certo.
E não foi só futebol.
Porque hoje percebo
que somos feitos também
das pessoas que brincaram conosco,
das que nos desafiaram,
das que construíram alguma coisa ao nosso lado,
das que contaram histórias,
das que fizeram rir,
das que mostraram outros caminhos.
Um pouco do homem que inventa,
que provoca,
que cria histórias,
que constrói projetos,
que olha para uma coisa pronta e pergunta
“e se a gente fizesse diferente?”
nasceu também nesses encontros.
Alfredo.
Careca.
Giovanni.
Nenhum deles era meu pai.
E todos, de algum jeito,
foram um pouco.
Depois de muitos anos
a gente descobre essa multidão.
O pai irmão.
O pai cunhado.
O pai amigo.
O pai professor.
O pai avô.
E esses maravilhosos sujeitos
sem classificação possível
os tios pais.
Neste Dia dos Pais,
quero brindar também aos clandestinos.
Aos que exerceram pedaços de paternidade
sem documento,
sem cerimônia,
sem obrigação
e às vezes sem nem perceber.
Aos que deixaram uma ferramenta,
uma provocação,
uma história absurda,
uma gargalhada,
uma coragem,
uma invenção.
E até um time de futebol.
Porque pai também pode ser isso
alguém que ajuda a construir você
sem nunca ter recebido
a obrigação de fazê-lo.
E se hoje ainda invento,
brinco,
construo,
conto histórias,
desafio o óbvio
e visto vermelho e preto,
tem muito sujeito
que pode ser responsabilizado por isso.
Ainda bem.