Bagunça com cheiro de cerveja
Tem uma coisa aqui dentro
que eu conheço,
mas fazia tempo que não visitava.
Ou que não me visitava.
Não sei o nome.
Tem um pouco de dor,
um pouco de saudade de coisa nenhuma,
um pouco de vontade de pegar um avião
e descer em Napoli sem mala,
sem roteiro,
sem explicação.
Ir para a rua do Maradona,
entrar na trattoria Nenela,
comer mais,
beber alguma coisa,
dançar em cima da mesa
como se amanhã fosse problema de amanhã.
Ou vestir a camisa do Napoli
e entrar no Diego Armando Maradona
no meio daquela gente doida,
gritar um gol até perder a voz
e ver se, no meio de oitenta mil corações,
eu consigo esquecer um pouco do meu.
Ou não.
Também podia ir parar no Pará.
Num cabaré.
Manu Batidão tocando alto,
gente rindo,
dançando,
vivendo sem pedir licença.
Sei lá.
Porque hoje eu não quero muito silêncio.
Silêncio demais faz a gente escutar coisas
que passou muito tempo fingindo que não estavam falando.
Alguém disse uma vez
que dor de coração é combustível para samba.
Pode ser.
A minha ainda não virou samba.
Por enquanto é só barulho.
Tumulto.
Uma bagunça com cheiro de cerveja,
uma música tocando longe,
uma vontade absurda de dançar
e um coração que eu reconheço,
mesmo sem saber direito
o que ele está querendo dizer.
Quem sabe amanhã vire samba.
Hoje...
deixa tocar.