"Em um rio com água suja, a água limpa sempre esteve lá. E se você souber filtrar, sempre irá encontrá-la."
Passei boa parte da vida acreditando que existiam rios bons e rios ruins. Os bons eram transparentes, tranquilos, fáceis de atravessar. Os ruins eram barrentos, cheios de folhas, galhos, lama e tudo aquilo que fazia a gente torcer o nariz.
Demorei para perceber que a diferença nem sempre estava no rio.
Estava no filtro.
Vivemos repetindo que o mundo piorou. As notícias são ruins. As pessoas perderam o respeito. Ninguém mais escuta ninguém. A internet virou um depósito de raiva. A política divide. O trabalho desgasta. As relações decepcionam.
Tudo isso existe.
Seria ingenuidade fingir que não.
Mas, curiosamente, no mesmo dia em que alguém espalha ódio, outra pessoa organiza uma campanha para ajudar desconhecidos. Enquanto uma notícia fala de corrupção, outra quase escondida conta a história de um professor que mudou a vida de uma turma inteira. No mesmo bairro onde acontece uma violência, uma vizinha prepara sopa para quem nem conhece. No mesmo hospital em que alguém recebe um diagnóstico difícil, outra família comemora a alta de uma criança.
O rio continua o mesmo.
Misturado.
A água limpa nunca deixou de correr.
Ela apenas não vem pronta para beber.
Talvez a maturidade não seja aprender a enxergar somente a beleza, mas desenvolver filtros capazes de encontrá-la sem negar a existência da sujeira.
Porque negar a lama é fantasia.
Beber a lama é escolha.
Filtrar é sabedoria.
Percebo isso também nas pessoas. Nenhum de nós chega cristalino ao encontro do outro. Todos carregamos medos, traumas, contradições, defeitos e dias ruins. Se eu procurar apenas a sujeira, dificilmente encontrarei outra coisa. Mas, se eu aprender a filtrar, quase sempre descubro uma gentileza escondida, um talento adormecido, uma intenção boa tentando sobreviver ao peso da vida.
O mesmo acontece comigo.
Também sou rio.
Também misturo acertos e erros, coragem e medo, generosidade e egoísmo. Não faz sentido exigir dos outros uma transparência que nem eu consigo oferecer.
Talvez seja por isso que algumas pessoas caminhem pela vida convencidas de que tudo está perdido, enquanto outras, atravessando exatamente o mesmo mundo, continuam encontrando motivos para agradecer, construir, sorrir e sonhar.
Não porque vivem em rios diferentes.
Mas porque aprenderam a filtrar.
E, depois que aprendemos isso, uma descoberta muda tudo.
A água limpa nunca esteve ausente.
Ela sempre esteve lá.