Márcio Cerbella – Inspiração e Estratégia
Conteúdos que despertam a criatividade, desafiam limites e impulsionam a inovação.
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links
Textos

Quando o calendário resolve escrever

Sempre achei curioso que o calendário seja tratado como uma coisa tão séria.

Ele é cheio de números, quadradinhos, compromissos, boletos, reuniões e prazos. Parece um contador. Mas, de vez em quando, desconfio que ele resolve virar poeta.

Foi assim que percebi uma pequena travessura.

No dia 25 de julho, comemora-se o Dia do Escritor.

No dia seguinte, 26 de julho, o Dia dos Avós.

E, por uma coincidência que nunca consegui chamar apenas de coincidência, é também o meu aniversário.

Passei a imaginar essas datas conversando durante a madrugada.

O Dia do Escritor dizendo que alguém precisa continuar inventando histórias.

O Dia dos Avós lembrando que algumas histórias não se escrevem. Caminham de mãos dadas, fazem perguntas inesperadas, param para observar uma joaninha, um mico atravessando a estrada, uma pegada de cavalo na terra molhada.

E o meu aniversário chegando por último, sem querer atrapalhar a conversa, apenas agradecendo o privilégio de estar ali, exatamente no encontro entre uma coisa e outra.

Afinal, o que faz um escritor?

Escreve.

E o que faz um avô?

Também.

Só que, muitas vezes, sem caneta.

Escreve coragem quando segura uma mão pequena para atravessar a rua.

Escreve confiança quando escuta uma história que ninguém mais teria paciência de ouvir inteira.

Escreve imaginação quando aceita que um graveto pode ser espada, varinha mágica, antena espacial ou instrumento de uma banda invisível.

Escreve lembranças que só serão lidas muitos anos depois.

Talvez seja por isso que a Luma tenha mudado meu jeito de escrever.

Ela não revisa meus textos.

Ela revisa meu olhar.

Faz com que eu enxergue mundos onde antes havia apenas caminhos.

Transforma uma caminhada simples em aventura, uma conversa em descoberta, uma pedra em personagem, uma árvore em professora.

Ela me lembra que os melhores livros nem sempre têm páginas.

Alguns têm abraços.

Outros têm silêncio.

Alguns correm pela casa descalços.

Quando percebi essa sequência de datas, sorri.

Não porque elas explicassem alguma coisa.

Mas porque, por um instante, pareciam dizer que escrever e ser avô talvez pertençam à mesma família.

Os dois exigem presença.

Os dois pedem escuta.

Os dois acreditam no futuro.

E ambos deixam marcas que continuam existindo muito depois que terminamos de contar a história.

No fim das contas, meu aniversário caiu exatamente no meio dessa conversa.

E acho bonito imaginar que, todos os anos, antes de soprar as velas, o calendário me faz a mesma pergunta, em silêncio.

"Neste novo ano... qual história você pretende viver?"

Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 25/07/2026
Comentários
Seja Fora do Normal R$ 59,90
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links