Esse deveria ser o começo de uma conversa sobre arte, literatura, cultura, imaginação e diversidade.
Virou caso de polícia.
Quando agentes armados entram em uma escola para questionar uma atividade pedagógica baseada no estudo da cultura afro-brasileira, algo muito maior do que um conflito entre família e escola acontece. O que entra em risco não é apenas a autonomia pedagógica. É o próprio Estado Democrático de Direito.
A escola pública brasileira não foi criada para ensinar uma religião. Também não foi criada para esconder a história, a cultura ou as contribuições dos povos que formaram o Brasil. Pelo contrário. A legislação educacional determina que a História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena façam parte do currículo escolar, por força das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008. A Base Nacional Comum Curricular reafirma esse compromisso ao estabelecer que os estudantes desenvolvam competências relacionadas ao respeito à diversidade, ao combate ao racismo, à valorização das diferentes matrizes culturais e ao exercício da cidadania.
Estudar Iansã não significa professar a religião dos orixás. Assim como estudar Zeus não transforma alguém em praticante da religião da Grécia Antiga. Ler sobre o Natal não converte automaticamente um estudante ao cristianismo. Conhecer diferentes manifestações culturais é papel da educação; catequizar é outra coisa.
Confundir conhecimento com doutrinação revela desconhecimento sobre o que é currículo escolar.
Mais grave ainda é responder a esse equívoco com a presença de policiais armados dentro de uma escola, intimidando profissionais que cumpriam exatamente aquilo que a legislação determina. A força policial existe para proteger a comunidade escolar diante de ameaças reais à integridade física das pessoas, não para arbitrar conteúdos pedagógicos previstos em lei. Especialistas em educação e direito público destacaram que esse tipo de intervenção extrapola o papel da polícia e fere a autonomia escolar.
Há uma ironia dolorosa nessa cena.
Enquanto a escola ensinava uma criança a conhecer a riqueza da cultura brasileira, adultos ensinavam que algumas culturas podem ser tratadas como suspeitas.
Enquanto um desenho convidava ao diálogo, armas produziam silêncio.
A Constituição Federal garante a liberdade de crença, mas também assegura a laicidade do Estado. Isso significa que nenhuma religião deve ser privilegiada ou perseguida. A escola pública, por sua vez, tem o dever de formar cidadãos capazes de compreender a pluralidade do país em que vivem.
Uma democracia forte não teme livros infantis.
Não teme desenhos.
Não teme a palavra "Iansã".
Quando uma sociedade passa a enxergar um desenho infantil como ameaça e a educação como caso de polícia, talvez seja hora de perguntar quem realmente deixou de aprender o que a escola existe para ensinar.