Márcio Cerbella – Inspiração e Estratégia
Conteúdos que despertam a criatividade, desafiam limites e impulsionam a inovação.
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Textos

Entrei naquela escola em Rio das Ostras para falar de empreendedorismo.

Nada de muito diferente.

Ou pelo menos era o que eu imaginava.

As barracas estavam espalhadas pelo pátio, cada grupo apresentando suas ideias, produtos, sonhos e tentativas de transformar criatividade em alguma coisa concreta.

Até que encontrei uma barraca diferente.

Não vendia brigadeiros.

Não vendia artesanato tradicional.

Não vendia planos para mudar o mundo.

Vendiam pequenos mundos.

Bonequinhos, talismãs, chaveiros, símbolos e objetos inspirados em animes japoneses.

Confesso que conhecia muito pouco daquele universo.

Mas a curiosidade sempre foi um defeito que nunca consegui abandonar.

Parei.

Observei.

Perguntei.

E os meninos começaram a explicar.

Falaram sobre personagens, batalhas, universos paralelos, robôs gigantes, escolhas difíceis, amizade, coragem e algo chamado Neon Genesis Evangelion.

Enquanto escutava, percebi uma coisa curiosa.

Eles não estavam apenas vendendo produtos.

Estavam compartilhando imaginação.

Cada bonequinho carregava uma história.

Cada símbolo representava um universo inteiro.

Cada cliente comprava um objeto, mas levava junto um pedaço de uma narrativa.

Empreendedorismo puro.

Talvez mais puro do que muita empresa adulta consegue fazer.

Saí dali pensando.

Nós passamos boa parte da vida tentando ensinar os jovens a enxergar o mundo.

Mas, às vezes, são eles que nos apresentam mundos que nunca vimos.

Logo depois apareceu o boné.

Preto.

Com orelhas de gato.

Estranho o suficiente para chamar atenção.

Divertido o suficiente para eu gostar.

E então veio a brincadeira.

Alguém comentou que eu parecia um personagem de anime.

Outro falou de Evangelion.

E de repente me vi pensando que talvez aqueles garotos tivessem razão sobre uma coisa.

Todo mundo é piloto de alguma coisa.

Uns pilotam empresas.

Outros pilotam escolas.

Outros pilotam famílias.

Há quem pilote sonhos.

Há quem pilote medos.

Há quem passe a vida inteira tentando aprender os controles.

A diferença é que, em Evangelion, os inimigos aparecem no radar.

Na vida real eles costumam chegar disfarçados.

Às vezes têm forma de dúvida.

Às vezes de medo.

Às vezes de comodismo.

Às vezes de um sonho que a gente abandonou cedo demais.

Mas existe outra lição escondida naquela barraca.

O verdadeiro piloto não é quem conhece apenas o próprio mundo.

É quem mantém a curiosidade para visitar o mundo dos outros.

Foi por isso que parei para ouvir aqueles jovens.

Não para entender um anime.

Mas para entender pessoas.

Porque toda vez que alguém nos apresenta aquilo que ama, abre também uma janela para dentro de si.

E talvez seja essa a maior aventura de todas.

Não pilotar um EVA.

Mas continuar curioso o suficiente para descobrir universos inteiros dentro de gente comum.

Ou aparentemente comum.

Porque, olhando melhor, ninguém é tão comum assim.

Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 11/06/2026
Alterado em 17/06/2026
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