O fusquinha branco entrou devagar pelo portão do sítio.
Eu já sabia quem vinha dirigindo.
Era eu.
Ou melhor, era o Márcio de 1993.
Vinte e oito anos. Casado com a Mônica. Pai da Luana, com quatro anos, e da recém-chegada Júlia.
Ele estacionou debaixo da sombra de uma árvore e ficou olhando em volta.
Demorou alguns segundos para sair do carro.
— Onde é que eu vim parar?
— No futuro.
Ele olhou novamente para as árvores, para o gramado, para os passarinhos.
— Então deu errado.
— Por quê?
— Eu moro num sítio?
— Mora.
— Eu, que cresci em apartamento?
— Você mesmo.
Ele caminhou alguns passos.
— E gosto disso?
— Muito.
Billy apareceu abanando o rabo.
— E esse cachorro?
— É da família.
— Tem mais?
— Tem gato também.
— Você virou fazendeiro?
— Nem de longe.
Sentamos para tomar café.
Ele observou a caneca fumegante.
— E aí? A empresa deu certo?
— Continua existindo.
— Continua?
— Desde 1993.
Ele levantou as sobrancelhas.
— Aquela ideia maluca continua viva?
— Continua.
— E ajudou alguém?
— Bastante gente.
Ele sorriu.
Daquele jeito de quem ainda não sabe o tamanho do caminho que vai percorrer.
Depois veio a pergunta inevitável.
— E aí? Ficamos ricos?
— Ficamos.
Quase derrubou a caneca.
— Sério?
— Sério.
— Quanto?
— Alguns milhões.
Agora ele quase caiu da cadeira.
— Eu sabia!
— Calma...
— Temos mansão?
— Não.
— Ferrari?
— Não.
— Iate?
— Também não.
— Então onde foi parar esse dinheiro?
Apontei para a casa.
— Um pedaço está ali.
Apontei para as árvores.
— Outro está aqui.
Apontei para uma menina correndo pelo quintal.
— E uma parte enorme está ali.
Ele me olhou sem entender.
— Você continua falando por enigmas.
— Não. Você que continua usando a definição errada de riqueza.
Ele cruzou os braços.
— Então me explica.
— Você está pensando em quantas portas consegue comprar.
— E não é isso?
— Não.
— Então o que é?
Pensei por alguns segundos.
— É poder escolher quais portas vale a pena abrir.
O silêncio se instalou.
Daqueles que ajudam as ideias a pousarem.
— E tem mais.
— O quê?
— A maior riqueza não foi abrir as nossas portas.
— Não?
— Foi ajudar Luana, Júlia e Ítalo a encontrarem as chaves das deles.
Ele ficou imóvel.
— Ítalo?
— Seu filho mais novo.
Os olhos dele se encheram de curiosidade.
— Eu vou ter outro filho?
— Vai.
— E eles estão bem?
— Estão construindo seus próprios caminhos.
Ele respirou fundo.
— Então deu certo.
— Deu trabalho.
Ele gargalhou.
— Isso eu não tinha dúvida.
O vento passou pelas árvores.
Billy correu atrás de alguma coisa que provavelmente só existia na cabeça dele.
Ao longe, Luma brincava pelo quintal.
O Márcio de 1993 apontou para ela.
— Quem é?
Meu sorriso mudou.
— Sua neta.
Ele arregalou os olhos.
— Eu tenho uma neta?
— Tem.
— E ela é feliz?
— Muito.
Ele ficou observando a menina por um longo instante.
— A Mônica continua comigo?
— Continua.
Agora seus olhos brilharam.
— Sério?
— Sério.
— Então já valeu a viagem.
Ficamos em silêncio.
Tomando café.
Escutando os pássaros.
Vendo o tempo passear entre as árvores.
Até que ele fez a pergunta que realmente queria fazer desde que chegou.
— Me diz uma coisa.
— Diga.
— Valeu a pena?
Olhei para o sítio.
Para a família.
Para os livros.
Para os amigos.
Para as cidades visitadas.
Para os sonhos realizados.
Para os que ainda continuam caminhando.
Pensei na Itália.
Nas bibliotecas.
Nas palestras.
Nos alunos.
Nos autores.
Nas histórias.
Então respondi.
— Nem tudo aconteceu como você planejou.
— Imaginei.
— Mas aconteceu muito mais do que você seria capaz de imaginar.
Ele sorriu.
Daquele jeito tranquilo que só aparece quando o coração entende algo antes da cabeça.
Os dois olhamos para o fusquinha branco estacionado perto da jabuticabeira.
E eu pensei que alguns veículos transportam pessoas.
Outros transportam destinos.
Aquele fusquinha branco de 1993 carregava um sítio inteiro.
Carregava Mônica.
Carregava Luana, Júlia e Ítalo.
Carregava Luma.
Carregava livros que ainda não existiam.
Carregava viagens que ainda não haviam sido feitas.
Carregava amigos que ainda seriam encontrados.
Carregava milhões.
Não apenas de patrimônio.
Milhões de lembranças.
Milhões de aprendizados.
Milhões de possibilidades.
E um futuro tão grande que não cabia nem no porta-malas, nem nos sonhos daquele rapaz de vinte e oito anos.
Mas, de algum jeito misterioso, ele já estava lá.
Sentado ao volante.
Seguindo em frente.