Lá de longe alguém decreta,
bate o martelo e dá opinião,
desenhando no mapa inteiro
uma única explicação.
Mistura morro com bandido,
confunde povo com facção,
esquece a avó na janela,
o pedreiro e o irmão.
Esquece a moça que trabalha
duas horas no busão,
o menino que sonha ser médico,
professor ou campeão.
Tem quem veja só a manchete,
sem buscar compreensão,
como se milhões de histórias
coubessem numa definição.
E eu me pergunto, sem pressa,
procurando uma razão...
por que o medo ganha aplausos
e às vezes vira celebração?
Por que tanta gente vibra
com discurso de divisão?
Será carência de afeto?
Será falta de visão?
O ego veste mil fantasias,
fala alto na multidão,
promete mundos perfeitos,
mas entrega exclusão.
Enquanto isso, a favela
segue firme em construção,
fazendo festa com pouco,
inventando solução.
Tem samba, tem biblioteca,
tem arte, tem mutirão,
tem gente salvando vidas
sem pedir condecoração.
É preciso resistência,
mas sem perder o coração.
Lutar firme pela justiça,
sem abrir mão da compaixão.
Defender a liberdade,
combater discriminação,
sem trocar um preconceito
por uma nova prisão.
Porque o mundo muda pouco
quando cresce a imposição,
mas muda muito quando cresce
o respeito e a união.
E talvez a grande coragem,
nestes tempos de tensão,
seja manter viva a alegria
como forma de revolução.