Textos
Mil Ritmos da Natureza
O vento não decide
se embala ou desarruma
passa pelas folhas em sussurro
e, no instante seguinte,
vira mão aberta espalhando segredos
o mar respira em camadas
superfície quase calma
fundo em movimento antigo
uma onda chega antes da outra terminar
e nenhuma pede desculpa
há uma árvore que insiste em florir fora de época
talvez por rebeldia
talvez por outro relógio
raízes marcando um tempo que não aparece no céu
as folhas conversam entre si
cada uma num tom
verde claro em ansiedade
verde escuro em paciência
algumas já douradas
desprendendo-se como quem muda de assunto
um pássaro corta o ar
não no ritmo do vento
mas no dele
e por um segundo
o céu aceita essa pequena desobediência
a água de um riacho não mantém a mesma pressa em um trecho se apressa nas pedras
em outro demora nas curvas
como se lembrasse
e esquecesse
ao mesmo tempo
há um silêncio no meio da mata
que parece é ausência
mas é excesso de vida
cada coisa vibrando no seu pulso
sem precisar combinar
o sol atravessa as copas
em feixes desalinhados
luz que chega na penumbra
mas ainda assim ilumina
e o dia segue
sem partitura
vento, mar, folhas
cada um no seu tempo
atravessando o outro
sem ajuste
um ritmo interrompe o outro
e nenhum termina
tudo acontecendo
nessa desordem mansa
que nunca se resolve
Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 02/05/2026
Alterado em 02/05/2026
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