Textos
Mil Ritmos Urbanos
Uma rua respira em contratempo
o sinal abre quando o passo hesita
e fecha quando o desejo atravessa
há um banco de praça que guarda tardes lentas
enquanto ao lado
um celular mastiga urgências
no mesmo quarteirão
uma janela insiste em permanecer aberta
mesmo com o vento trocando de humor
cortina em desacordo com o céu
um bar ensaia risos fora de hora
copos tilintam como se anunciassem festa
mas a música chega meio segundo depois
e ninguém corrige
num quarto qualquer
um caderno aceita palavras
que não combinam
frases que começam no frio
e terminam com calor nas mãos
o relógio da parede
marca o tempo que foi combinado
o corpo do lugar inventa outro
um tempo que tropeça
que acelera sem sair do lugar
há passos que caminham em linha
e pensamentos que fazem curvas
um eco que responde antes da pergunta
e outro que se atrasa
como se ainda estivesse vindo de longe
um cheiro de café atravessa a manhã
sem pedir licença
mistura-se ao som de uma porta que range
e a lembrança de algo que não aconteceu ali
na esquina
um silêncio cresce no meio do barulho
não como ausência
mas como presença desalinhada
nada se ajusta por completo
nem precisa
o dia se sustenta
nessa leve desafinação
onde tudo insiste em acontecer
cada coisa no seu pulso
sem combinar com a outra.
Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 02/05/2026
Alterado em 02/05/2026
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