Márcio Cerbella – Inspiração e Estratégia
Conteúdos que despertam a criatividade, desafiam limites e impulsionam a inovação.
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Textos
Manual para incendiar molduras
Não confie em quem nunca sentiu raiva.
Ou sentiu e transformou tudo em discurso palatável.

A raiva é um idioma antigo, anterior à gramática do bom comportamento.
Ela não foi feita para caber em relatórios, nem em posts motivacionais, nem em aplausos tímidos.
A raiva nasce quando o corpo percebe o que a lógica tenta relativizar.

Há algo profundamente político no instante em que alguém diz: isso não é normal.
Esse instante costuma vir acompanhado de calor.
De tremor.
De uma vontade urgente de quebrar alguma coisa, nem sempre um objeto, às vezes um pacto silencioso.

A arte que me interessa começa aí.
No ponto exato em que a emoção deixa de ser educada.

Não quero a estética da raiva coreografada, convertida em produto consumível, domesticada por filtros conceituais que a tornam inofensiva.
Quero a raiva que desloca a cadeira, que faz a frase tropeçar, que produz silêncio constrangedor antes do entendimento.

A raiva é um martelo simbólico.
Não para destruir por impulso, mas para testar a resistência das estruturas que fingem eternidade.

Quem nunca teve vontade de rasgar a narrativa dominante que levante a mão.
Quem nunca se sentiu estrangeiro no próprio tempo.
Quem nunca percebeu que a normalidade é, muitas vezes, um acordo coletivo de sobrevivência, e não de verdade.

Minha raiva é lúcida.
E isso assusta mais do que o grito.

Porque a raiva lúcida não explode apenas: ela argumenta, cria, insiste.
Ela escreve.
Ela pinta.
Ela ocupa.
Ela imagina futuros como quem abre janelas numa casa sem ar.

Criar a partir da raiva é aceitar o risco da incompreensão.
É ouvir que “exagerou”, que “não era bem assim”, que “poderia ter dito de outro jeito”.
Mas o “outro jeito” costuma ser o jeito que mantém tudo como está.

A arte, quando atravessada pela raiva, interrompe o fluxo da passividade.
Ela produz ruído onde havia trilha sonora ambiente.
Ela revela rachaduras que a decoração escondia.

Não me interessa a arte que consola rapidamente.
Interessa-me a arte que demora a ser digerida, que volta dias depois, que provoca perguntas incômodas no meio do café ou do trânsito.

Há quem veja na raiva um afeto menor.
Um descontrole.
Um erro de caráter.

Mas talvez a raiva seja uma forma de inteligência emocional radical:
o corpo identificando a injustiça antes que o discurso a normalize.

Toda vez que a arte nasce desse reconhecimento, algo se move.
Mesmo que discretamente.
Mesmo que apenas dentro de alguém.

Minha raiva não quer plateia obediente.
Quer interlocução viva.
Quer fricção.
Quer o direito de existir sem pedir desculpas por não ser agradável.

Se a arte é linguagem, a raiva é um de seus verbos mais urgentes.
Conjuga-se no presente.
No imperativo.
No modo que ainda não foi inventado.

Talvez criar seja isso:
transformar combustão em forma.
Desconforto em pergunta.
Raiva em possibilidade de mundo.

Não escrevo só para aliviar a tensão.
Escrevo também ⁴ para lembrar que ela existe.
E que, enquanto existir, há movimento.

Se algumas obras são janelas,
as minhas, às vezes, preferem ser pedra.
Não para ferir, mas para interromper o vidro da indiferença.

Que a arte não nos pacifique rápido demais.
Que a raiva continue sendo essa energia indisciplinada que nos impede de aceitar o inaceitável como paisagem.

E que, quando tudo parecer em ordem,
alguém ainda tenha coragem de incendiar a moldura,
só para ver se o quadro respira.
Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 02/05/2026
Alterado em 04/05/2026
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