Márcio Cerbella – Inspiração e Estratégia
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Textos

Pai,

escrevo como quem encosta a cabeça no seu ombro de novo, mesmo sabendo que agora o caminho é outro, mais silencioso, mais cheio de mistério

você, com essa voz grossa que parecia anunciar firmeza, mas que vinha sempre acompanhada de uma fala mansa, dessas que não ferem, que acolhem

um homem simples… e talvez por isso mesmo, imenso

tem uma cena que nunca saiu de mim

eu deitado, pequeno, e você ali ao lado da cama

todas as noites

sem faltar

cantando cantigas do seu jeito, meio desafinado, meio perfeito

esperando eu dormir como quem vigia um tesouro

e voce deixava

de propósito

eu apertar seu cotovelo

como se aquilo fosse um código secreto entre nós

um jeito de dizer: “tô aqui, pode dormir tranquilo”

e eu dormia

você me ensinou o Pai Nosso

rezava comigo como quem planta proteção no invisível

talvez sem saber que aquelas palavras iam ecoar por toda a minha vida

até hoje

me levou aos jogos do Flamengo

mesmo carregando no peito o amor pelo Vasco da Gama

percebo agora esse gesto, pai…

amor que atravessa rivalidade sem fazer barulho

jogou futebol de botão comigo

mesmo sem ter muita paciência pra isso

e ainda assim jogava

porque mais importante do que o jogo

era estar comigo

quando comecei a inventar meus primeiros caminhos

essas ideias meio malucas de fazer acontecer

você não só acreditou

como foi junto

trabalhou comigo

como quem diz sem dizer: “vai, que eu tô contigo”

e você sempre esteve

até o fim

naquele último mês

no hospital

o tempo parecia diferente

às vezes você estava aqui

às vezes já parecia em outro lugar

e eu ali

tentando te alcançar em cada brecha de lucidez

na virada de 2014 para 2015

enquanto o mundo lá fora fazia barulho

a gente fazia silêncio

e presença

cantei pra você dormir

como você fez comigo a vida inteira

cantei músicas da minha fé

cantei músicas que você gostava

até o hino do Vasco da Gama saiu muitas vezes

e eu, flamenguista, cantei

porque naquele momento, como sempre foi entre nós, não existia mais lado

só existia amor

e, de algum jeito que não sei explicar

senti que consegui te devolver um pouco daquela segurança

que você me deu tantas noites

como se, pela primeira vez,

eu estivesse ao lado da sua cama

esperando você dormir tranquilo

pai…

tem noites em que ainda sinto vontade de fazer isso tudo de novo

de chegar aí, sentar ao seu lado

cantar baixinho

rezar com você

e apertar seu cotovelo

ou talvez deixar você apertar o meu

só pra garantir que estavamos juntos

queria muito que, de algum jeito,

você ainda recebesse todas as noites

meu carinho

meu abraço

então eu te envio esta carta

mesmo sem endereço

mesmo sem resposta

porque algumas presenças

não precisam de corpo

pra continuar sendo companhia

e você…

continua

com amor que não termina

seu filho

Márcio Cerbella Freire

Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 21/04/2026
Alterado em 21/04/2026
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