Pai,
escrevo como quem encosta a cabeça no seu ombro de novo, mesmo sabendo que agora o caminho é outro, mais silencioso, mais cheio de mistério
você, com essa voz grossa que parecia anunciar firmeza, mas que vinha sempre acompanhada de uma fala mansa, dessas que não ferem, que acolhem
um homem simples… e talvez por isso mesmo, imenso
tem uma cena que nunca saiu de mim
eu deitado, pequeno, e você ali ao lado da cama
todas as noites
sem faltar
cantando cantigas do seu jeito, meio desafinado, meio perfeito
esperando eu dormir como quem vigia um tesouro
e voce deixava
de propósito
eu apertar seu cotovelo
como se aquilo fosse um código secreto entre nós
um jeito de dizer: “tô aqui, pode dormir tranquilo”
e eu dormia
você me ensinou o Pai Nosso
rezava comigo como quem planta proteção no invisível
talvez sem saber que aquelas palavras iam ecoar por toda a minha vida
até hoje
me levou aos jogos do Flamengo
mesmo carregando no peito o amor pelo Vasco da Gama
percebo agora esse gesto, pai…
amor que atravessa rivalidade sem fazer barulho
jogou futebol de botão comigo
mesmo sem ter muita paciência pra isso
e ainda assim jogava
porque mais importante do que o jogo
era estar comigo
quando comecei a inventar meus primeiros caminhos
essas ideias meio malucas de fazer acontecer
você não só acreditou
como foi junto
trabalhou comigo
como quem diz sem dizer: “vai, que eu tô contigo”
e você sempre esteve
até o fim
naquele último mês
no hospital
o tempo parecia diferente
às vezes você estava aqui
às vezes já parecia em outro lugar
e eu ali
tentando te alcançar em cada brecha de lucidez
na virada de 2014 para 2015
enquanto o mundo lá fora fazia barulho
a gente fazia silêncio
e presença
cantei pra você dormir
como você fez comigo a vida inteira
cantei músicas da minha fé
cantei músicas que você gostava
até o hino do Vasco da Gama saiu muitas vezes
e eu, flamenguista, cantei
porque naquele momento, como sempre foi entre nós, não existia mais lado
só existia amor
e, de algum jeito que não sei explicar
senti que consegui te devolver um pouco daquela segurança
que você me deu tantas noites
como se, pela primeira vez,
eu estivesse ao lado da sua cama
esperando você dormir tranquilo
pai…
tem noites em que ainda sinto vontade de fazer isso tudo de novo
de chegar aí, sentar ao seu lado
cantar baixinho
rezar com você
e apertar seu cotovelo
ou talvez deixar você apertar o meu
só pra garantir que estavamos juntos
queria muito que, de algum jeito,
você ainda recebesse todas as noites
meu carinho
meu abraço
então eu te envio esta carta
mesmo sem endereço
mesmo sem resposta
porque algumas presenças
não precisam de corpo
pra continuar sendo companhia
e você…
continua
com amor que não termina
seu filho
Márcio Cerbella Freire