Eu fui só ver o poço
coisa rápida
coisa de quem resolve o dia
antes que o dia resolva a gente
a bomba d’água lá
cumprindo seu destino barulhento
sem poesia nenhuma
ou talvez com toda
no caminho
um pé de urucum me interrompeu
dessas interrupções que não pedem licença
só acontecem
peguei alguns
já imaginando dedos coloridos
história boa pra Luma
dessas que viram risada
e mancha na roupa
mas o tempo tinha passado antes de mim
e passado com vontade
os frutos já não diziam nada
murchos
cansados
como se tivessem esquecido a própria cor
mesmo assim levei
porque às vezes a gente leva
mais a intenção do que o resultado
ela ouviu
quis ver
quis tocar o lugar onde a história nasceu
e eu
eu disse que estava cansado
desses cansaços que são verdade
mas não são maiores que um olhar curioso
demorei um segundo
talvez dois
e fui
o pé estava lá
com suas pequenas derrotas penduradas
mas também com flores
insistindo
mostrei a ela
e fui mostrando o resto
como quem reaprende o próprio quintal
a jabuticabeira
guardando segredos no tronco
a mangueira
com aquele ar de quem já viu verões demais
a acerola oferecendo urgência
a laranjeira equilibrada
a goiabeira distraída
o limoeiro sempre meio ácido
como certas verdades
e então
quase como quem pede desculpa
um pau-brasil
vinte e seis anos crescendo
sem fazer barulho
sem me chamar
sem se impor
e eu ali
diante dele
tentando lembrar
em que momento plantei tempo
voltamos
ela com os olhos cheios
eu com o corpo ainda cansado
mas alguma coisa
dessas que não fazem alarde
tinha mudado de lugar aqui dentro
agora escrevo da cama
com o mesmo cansaço
ou talvez outro
e fico pensando
se não é assim mesmo
a gente vai ver o básico
e volta tendo encontrado o essencial
mesmo quando o urucum não pinta
mesmo quando a cor falha
a vida
de algum jeito
sempre dá um jeito de acontecer.