Textos
Destempero
Tem um instante
quase invisível
em que a palavra deixa de ser ponte
e vira pedra na mão
a gente estuda
respira
conta até dez
lembra da Comunicação Não Violenta
mas o coração atropela tudo
e quando percebe
já foi
não era pra ferir
mas feriu
não era pra levantar a voz
mas ela veio alta
quente
cheia de coisa acumulada
e depois vem o silêncio
aquele que pesa
que fica andando pela casa
encostando nas coisas
lembrando
destempero é isso
é quando o humano escapa da gente
sem aviso
sem preparo
sem beleza
e aí vem o depois
que nem sempre é bonito
mas é o que existe
chegar mais perto
mesmo com vergonha
mesmo sem saber muito bem o que dizer
recolher o que deu
olhar de novo
diminuir o tom
trocar o ataque por presença
às vezes só cabem poucas palavras
às vezes só cabe ficar
reconstruir vai acontecendo assim
devagar
meio torto
com silêncio no meio
com escuta reaprendida
e o amor
se estiver por ali
não aparece como cena perfeita
aparece nesse retorno
meio sem jeito
meio humano demais
ou talvez nem seja fim
a gente não cabe só nos acertos
tem algo meio desarrumado
quase vivo demais
que escapa
erra
se espalha
e fica ali
sem saber exatamente por quê
ou até quando
e cuidar
mesmo depois do destempero
Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 18/04/2026