A criança é feita de cem. Mas não daqueles cem que cabem na conta, nem dos que a escola insiste em alinhar em silêncio.
Ela é feita de cem… e de outros tantos que escapam pelos olhos, quando brilham sem pedir permissão.
Tem cem linguagens, cem formas de tocar o mundo, cem jeitos de dizer “eu existo”,
mesmo quando ninguém ensinou as palavras.
Mas é no afeto… que essas linguagens ganham som.
Porque sem afeto, a imaginação se esconde, o erro vira medo, e o sonho… pede licença pra nascer.
Dizem pra ela: pense sem se envolver, faça sem sentir, aprenda… mas não se apegue.
Como se aprender fosse possível sem que o coração estivesse presente.
Mas a criança sabe.
Sabe que um olhar acolhe mais que mil regras, que um abraço organiza o caos, que um “eu tô aqui com você” vale mais do que qualquer resposta certa.
Ela mistura. Mistura ciência com carinho, mistura curiosidade com vínculo, mistura o mundo… com gente.
E quando encontra afeto… ah, quando encontra…
ela se expande.
Erra sem medo, cria sem pedir desculpa, e transforma o pequeno em gigante com a leveza de quem se sente segura pra fazer.
Mas o afeto é o que abre as portas.
É o que permite que as cem apareçam, dancem, se misturem, e virem potência.
Não é só sobre quantas linguagens ela tem.
É sobre quantas delas a gente permite florescer.
Obs.: Essa poesia é inspirada na poesia “A criança É Feita de Cem” de Loris Malaguzzi