Dizem que há um tempo
que não passou.
Um tempo que não ficou pra trás…
nem está à frente.
Um tempo que acontece
enquanto a gente respira.
Às vezes penso
que a poesia vem de lá.
Não como ideia,
nem como técnica,
nem como intenção bonita.
Mas como um sopro antigo…
que encontra a gente distraído.
Já senti isso
em lugares diferentes demais
pra caberem no mesmo mapa.
Numa estrada silenciosa na Itália,
num topo branco onde o céu parecia não acabar,
num instante qualquer
em que o mundo ficou grande demais
e eu… pequeno o suficiente pra perceber.
Tem algo que chama…
mas não chama pelo nome.
E quando a gente tenta entender,
escapa.
Quando tenta segurar,
se desfaz.
Mas se a gente anda com isso…
mesmo sem saber o que é…
alguma coisa começa a se desenhar.
Como pontos espalhados
que, de longe,
quase formam um caminho.
Ou não.
Talvez nunca tenham sido caminho.
Talvez sejam só vestígios...
de algo que continua acontecendo
mesmo quando ninguém está olhando.
Escrever, às vezes,
parece isso…
seguir sinais que não prometem chegada.
Escutar histórias que não começaram com a gente.
E que, com sorte,
também não terminam.
Porque tem palavra que não é criada.
É encontrada.
Ou atravessa.
Como se já estivesse por aí
há muito tempo…
esperando alguém
com coragem suficiente
pra não entender tudo.
E talvez eu esteja escrevendo isso agora…
ou talvez só esteja sendo escrito.