A poesia não avisa.
Quando percebo,
já estou no meio dela…
ou ela no meio de mim,
nunca sei direito.
Às vezes começa com uma palavra
que nem era pra ficar.
Uma dessas que escapa,
tropeça,
e resolve não ir embora.
Outras vezes é só um silêncio
que demora mais do que deveria…
e alguém dentro de mim
resolve escutar.
Tem dias em que nada vem.
Nem palavra,
nem vontade,
nem sentido.
E mesmo assim…
alguma coisa fica rondando.
Não sei se é memória,
se é paisagem,
se é o corpo tentando dizer
o que ainda não virou linguagem.
Tem poesia que parece lembrança
de algo que nunca vivi.
Tem outras que eu vivi
mas só entendi depois,
ou nem isso.
Escrever, às vezes,
é só seguir uma pista fraca…
quase apagada…
como pegadas na neve
enquanto ainda neva.
E quando olho pra trás,
já não sei mais
onde começou.
Nem se começou.
Só sei que continuo.