Às vezes acho que sentir é meio desorganizado demais pra caber em qualquer explicação, como se as emoções acordassem antes da mim e já saíssem bagunçando tudo por dentro, umas chegam pesadas, quase arrastando o corpo, outras passam rápidas, leves, quase sem deixar rastro, e mesmo assim deixam, sempre deixam alguma coisa, um eco, um quase, um talvez…
Tem dia que tudo parece muito claro e no minuto seguinte já não é mais, como se a lógica fosse só uma tentativa elegante de domesticar o que é selvagem por natureza, porque tem coisa que a gente entende e ainda assim não aceita, e tem coisa que não entende nada mas sente como se fosse a coisa mais certa do mundo e aí fico nesse meio termo meio estranho entre confiar no que penso ou no que pulsa, porque o pensamento argumenta, organiza, tenta convencer, mas o instinto… Ah, o instinto simplesmente vai, sem pedir opinião, sem esperar consenso, meio irresponsável, meio sábio, difícil dizer, tem sentimentos que parecem verdade mesmo quando tudo diz que não são, e outros que deveriam ser sólidos mas escorrem pelos dedos, e eu não sei se isso é fraqueza ou só humanidade acontecendo do jeito dela, meio torta, meio bonita, meio confusa, às vezes eu queria nomear tudo, dar ordem, criar um mapa, mas toda vez que acho que entendi alguma coisa, vem outra sensação e muda tudo de lugar, como se viver fosse esse rearranjo constante, essa tentativa de equilibrar o que pesa com o que levanta, e no meio disso tudo tem uma coisa que não sei explicar direito, mas insiste em ficar, uma espécie de esperança meio teimosa, que não grita, não se impõe, só permanece ali, quieta, quase invisível, como se dissesse sem dizer que, mesmo sem entender, ainda vale continuar sentindo, mesmo que seja assim… meio torto, meio incerto, meio vivo.