Havia um dia qualquer na Itália, desses que parecem ter sido pintados à mão, em que o tempo resolveu andar mais devagar. Eu estava ali, entre pedras antigas e pensamentos novos, quando encontrei .
Não foi um encontro desses de estátua apenas.
Foi mais… presença.
Talvez tenha sido numa esquina silenciosa de Florença,
ou escondido em alguma igreja onde a luz entra tímida,
como quem respeita a história antes de iluminá-la.
Lá estava ele.
Firme.
Inteiro.
Com o dragão eternamente vencido, e eternamente vivo.
E foi aí que entendi uma coisa curiosa:
na Itália, São Jorge parece morar na pedra.
No Brasil… ele mora no peito.
Porque no Brasil, meu amigo,
São Jorge não é só um santo,
é quase um companheiro de batalha.
Ele atravessa ruas,
entra nas conversas,
protege quem sai cedo,
e sorri discreto pra quem acredita mesmo sem ver.
Na Itália, ele é arte.
No Brasil, ele é coragem cotidiana.
E eu, ali no meio disso tudo,
me senti uma espécie de ponte,
um Cerbella atravessado de histórias,
com raízes que agora conversam entre si.
Porque tem coisa que a gente só entende viajando…
e outras que a gente só entende pertencendo.
O dragão, percebi, muda de forma conforme o lugar:
na Itália, ele é esculpido,
bonito, simbólico, quase poético.
No Brasil, ele é mais direto:
conta atrasada, medo calado, sonho adiado,
vida que insiste em testar a fé da gente.
Mas São Jorge… ah, São Jorge não muda.
Ele continua ali, montado na coragem,
lembrando, sem dizer palavra,
que lutar não é escolha,
é condição de quem ainda acredita.
E talvez seja isso que mais me encantou:
não importa se você está entre vinhedos italianos
ou no calor vibrante de uma rua brasileira,
o dragão sempre aparece…
mas a lança também.
E no fim das contas,
talvez a maior travessia não seja entre países, mas entre o medo e a fé.
E ali, naquele instante suspenso entre Itália e Brasil,
eu entendi que não é sobre vencer o dragão.
É sobre não desistir de enfrentá-lo.