Márcio Cerbella – Inspiração e Estratégia
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Textos

Nietzsche no Veleiro Illusionist

O mar estava tão quieto que parecia pensar.

O Veleiro Illusionist, com seus 29 pés de sonhos e teimosias, deslizava quase parado entre Angra e o horizonte. As velas pendiam como quem cochila numa rede.

Cerbella segurava o leme com paciência filosófica.

Ao lado dele, Clifford, físico brilhante e curioso, observava o mar como quem tenta resolver uma equação líquida.

— Curioso

— disse Clifford

— o vento simplesmente desapareceu.

Cerbella riu.

— O vento não desaparece… ele só decide pensar um pouco.

O veleiro balançou levemente.

Calmaria total.

O tipo de silêncio marítimo que faz até o tempo parar para escutar.

Foi então que um pequeno barco apareceu no horizonte.

Chegou devagar, quase teatralmente.

Dentro dele estava um homem de bigode imponente, olhar intenso e um chapéu que parecia carregar ideias perigosas.

Clifford estreitou os olhos.

— Aquilo… parece…

Cerbella completou:

— Nietzsche.

O filósofo subiu a bordo com a naturalidade de quem atravessa oceanos de pensamento todos os dias.

Olhou as velas frouxas.

— Ah… a calmaria.

Clifford comentou:

— Na física chamamos isso de ausência de força resultante.

Nietzsche sorriu.

— Na vida chamamos isso de oportunidade.

Cerbella ofereceu um café imaginário, hábito adquirido em encontros filosóficos inesperados.

Nietzsche caminhou pelo convés observando o mar parado.

— Vocês sabem… os homens têm medo da calmaria.

Clifford perguntou:

— Por quê?

Nietzsche respondeu:

— Porque na calmaria ninguém pode culpar o vento.

Silêncio.

O mar parecia ouvir.

Cerbella olhou o horizonte.

— Então o que fazemos quando não há vento?

Nietzsche respondeu com aquele brilho meio perigoso no olhar:

— Criamos velas maiores… ou remamos.

Clifford coçou o queixo.

— Isso é surpreendentemente compatível com a segunda lei da termodinâmica aplicada ao esforço humano.

Cerbella riu.

— No fundo estamos todos tentando navegar o caos.

Nietzsche apoiou-se na borda do barco.

— O mar é um bom professor. Ele não promete conforto… mas oferece grandeza.

Uma pequena brisa passou.

Quase imperceptível.

A vela do Ilusionista se moveu um pouco.

Clifford percebeu primeiro.

— Temos vento!

Nietzsche olhou para o horizonte.

— Não. Vocês têm vontade.

A vela inflou suavemente.

O barco começou a avançar outra vez.

Nietzsche desceu de volta ao pequeno barco que o trouxera.

Antes de partir disse algo que ficou ecoando no convés:

— Quem aprende a navegar calmarias está pronto para qualquer tempestade.

O mar voltou a respirar.

O Ilusionista ganhou velocidade.

Cerbella segurou o leme.

Clifford observava as velas com olhar científico.

E ambos perceberam algo curioso naquele dia:

às vezes o vento volta…

logo depois que a coragem aparece.

Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 09/03/2026
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