O mar estava tão quieto que parecia pensar.
O Veleiro Illusionist, com seus 29 pés de sonhos e teimosias, deslizava quase parado entre Angra e o horizonte. As velas pendiam como quem cochila numa rede.
Cerbella segurava o leme com paciência filosófica.
Ao lado dele, Clifford, físico brilhante e curioso, observava o mar como quem tenta resolver uma equação líquida.
— Curioso
— disse Clifford
— o vento simplesmente desapareceu.
Cerbella riu.
— O vento não desaparece… ele só decide pensar um pouco.
O veleiro balançou levemente.
Calmaria total.
O tipo de silêncio marítimo que faz até o tempo parar para escutar.
Foi então que um pequeno barco apareceu no horizonte.
Chegou devagar, quase teatralmente.
Dentro dele estava um homem de bigode imponente, olhar intenso e um chapéu que parecia carregar ideias perigosas.
Clifford estreitou os olhos.
— Aquilo… parece…
Cerbella completou:
— Nietzsche.
O filósofo subiu a bordo com a naturalidade de quem atravessa oceanos de pensamento todos os dias.
Olhou as velas frouxas.
— Ah… a calmaria.
Clifford comentou:
— Na física chamamos isso de ausência de força resultante.
Nietzsche sorriu.
— Na vida chamamos isso de oportunidade.
Cerbella ofereceu um café imaginário, hábito adquirido em encontros filosóficos inesperados.
Nietzsche caminhou pelo convés observando o mar parado.
— Vocês sabem… os homens têm medo da calmaria.
Clifford perguntou:
— Por quê?
Nietzsche respondeu:
— Porque na calmaria ninguém pode culpar o vento.
Silêncio.
O mar parecia ouvir.
Cerbella olhou o horizonte.
— Então o que fazemos quando não há vento?
Nietzsche respondeu com aquele brilho meio perigoso no olhar:
— Criamos velas maiores… ou remamos.
Clifford coçou o queixo.
— Isso é surpreendentemente compatível com a segunda lei da termodinâmica aplicada ao esforço humano.
Cerbella riu.
— No fundo estamos todos tentando navegar o caos.
Nietzsche apoiou-se na borda do barco.
— O mar é um bom professor. Ele não promete conforto… mas oferece grandeza.
Uma pequena brisa passou.
Quase imperceptível.
A vela do Ilusionista se moveu um pouco.
Clifford percebeu primeiro.
— Temos vento!
Nietzsche olhou para o horizonte.
— Não. Vocês têm vontade.
A vela inflou suavemente.
O barco começou a avançar outra vez.
Nietzsche desceu de volta ao pequeno barco que o trouxera.
Antes de partir disse algo que ficou ecoando no convés:
— Quem aprende a navegar calmarias está pronto para qualquer tempestade.
O mar voltou a respirar.
O Ilusionista ganhou velocidade.
Cerbella segurou o leme.
Clifford observava as velas com olhar científico.
E ambos perceberam algo curioso naquele dia:
às vezes o vento volta…
logo depois que a coragem aparece.