O terror não chega correndo.
Ele se espalha devagar, como neblina descendo o morro ao amanhecer, ocupando frestas, escadas, pensamentos.
Mora nas vielas onde a noite demora a passar, no eco metálico das celas que se fecham cedo demais, no passo apressado de mulheres que caminham como quem foge de um vento invisível.
Existe o terror da infância interrompida, do brinquedo abandonado no chão, da palavra engolida antes de nascer. Existe o terror dos olhos antigos ignorados pela pressa do mundo, da mesa vazia iluminada por uma lâmpada fraca, da fome que aprende a dormir acordada. Mas há um terror ainda mais silencioso. Ele vive dentro de casas iluminadas, em salas cheias de gente quieta, em pensamentos que nunca atravessam a boca. É o terror da imobilidade.
Ele cresce quando alguém vê e não age. Respira quando a coragem quase nasce e desiste. Alimenta-se do costume, do cansaço, do “não adianta”.
Esse terror não tem rosto, mas ocupa corpos inteiros.
Sussurra nos ouvidos cansados...
“Fique onde está.”
“Não é problema seu.”
“Não faz diferença.”
E assim ele se espalha, como mofo nas paredes do tempo, como poeira sobre retratos esquecidos. O mundo continua girando, carros passam, televisões acendem, histórias começam e terminam, enquanto o terror se acomoda no cotidiano.
Até que algo se levanta.
Não um herói.
Não um milagre.
Apenas alguém que decide não obedecer ao medo.
Uma mão estendida.
Uma voz que rompe o silêncio.
Uma janela aberta numa casa fechada há anos.
E então o terror recua um passo.
Porque o insano medo do terror, não são monstros, nem sombras, nem tempestades é quando alguém comum descobre que pode acender luz onde a escuridão pensava morar para sempre.