Viajante,
escrevo do lado de cá do horizonte,
onde os dias nascem com cheiro de terra molhada
e a tarde repousa na sombra mansa das árvores.
Talvez você demore.
Talvez nem saiba que está vindo.
Mas há sempre alguém a caminho
de um lugar que já o espera em silêncio.
Quero contar que o mundo não é só estrada.
Há quintais que são universos,
gatos que guardam segredos antigos
e cachorros que abanam o rabo
como quem acena para a eternidade.
Se passar por aqui,
não traga pressa na bagagem.
O tempo gosta de caminhar descalço
e se esconde quando ouve passos apressados.
Tenho aprendido com as crianças
que as perguntas são mais importantes que as respostas,
e com o mar
que toda despedida é apenas um jeito diferente de ficar.
Viajante,
se encontrar um banco vazio ao entardecer, sente-se.
Pode ser que uma lembrança pouse ao seu lado
pedindo apenas companhia.
E se a solidão bater à porta,
ofereça água, pão e escuta.
Ela quase sempre vai embora
deixando um bilhete de gratidão.
Por aqui cultivo pequenas eternidades,
uma palavra dita com cuidado,
um abraço que não precisa de motivo,
uma semente enterrada sem garantia de flor.
Talvez seja isso que eu queira lhe entregar,
não mapas, nem certezas,
mas um punhado de invisíveis
para que você reconheça o caminho do coração.
Quando chegar, não bata.
Os encontros verdadeiros
sabem entrar sem fazer barulho.
E se nunca vier,
ainda assim esta carta terá cumprido seu destino,
viajar sozinha pelo mundo,
até encontrar alguém que precise lembrar
que há sempre um lugar dentro de nós
onde o amor mora antes de ser nomeado.
Com afeto,
alguém que também está a caminho.