Fé...
Eu estudo o que se chama de doutrina espírita.
Alguns chamam de espiritismo.
Outros dizem kardecismo, espiritualismo…
Nomes que tentam organizar algo que, na essência,
não gosta muito de caber em prateleiras.
Mas, no fundo, o que me move não é o rótulo.
É o religare.
Esse gesto antigo e profundo de tentar, todos os dias,
voltar a Deus,
ou talvez lembrar que nunca estivemos realmente longe.
A fé, pra mim, não é uniforme.
Ela não exige mesma roupa, mesmo canto, mesmo ritmo.
Ela aceita o silêncio, o batuque, o coro, o mantra,
o joelho dobrado, o corpo em pé,
a vela acesa, a mão estendida,
ou a simples decisão íntima de fazer o bem sem anunciar a quem se deve.
Respeitar a fé do outro
é respeitar o caminho que ele encontrou para tocar o sagrado.
Mesmo quando esse caminho não se parece com o meu.
Mesmo quando não se parece com caminho nenhum.
Há quem encontre Deus no templo.
Há quem encontre na natureza.
Há quem encontre no estudo,
na ciência,
na dúvida honesta.
Há quem não use o nome Deus
e ainda assim pratique o amor,
a justiça,
a caridade,
o perdão.
E talvez, só talvez,
isso também seja oração.
Porque a fé não se mede pelo que se proíbe ou se permite,
pelo que é material ou imaterial,
pelo que se toca ou não se toca.
Ela se revela no que transforma.
No gesto que acolhe.
Na palavra que não machuca.
Na escolha de não devolver a violência recebida.
Na coragem de perdoar
quando o ego pede vingança
e o coração pede paz.
A redenção humana, penso eu,
não está em acertar sempre,
mas em aprender constantemente.
Errar, compreender, reparar.
Cair, levantar, amar de novo.
Ser religioso, espiritualista, espírita, ateu, agnóstico
talvez seja menos importante
do que ser humano em processo.
Um ser que busca religar,
consigo, com o outro, com o mistério da vida,
sabendo que cada um faz isso
do jeito que consegue,
com as ferramentas que tem,
no tempo que lhe foi dado.
Respeitar isso
é reconhecer que Deus,
se existe como creio,
não é pequeno.
Não cabe numa única forma de crer.
Ele habita o amor praticado,
a caridade silenciosa,
o perdão possível,
a ética cotidiana,
o bem feito sem plateia.
E talvez seja aí,
nesse ponto simples e profundo,
que todas as fés,
e até a ausência delas,
se encontram.
No gesto humano
de tentar ser melhor
do que fomos ontem.
Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 16/02/2026