Márcio Cerbella – Inspiração e Estratégia
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Textos

Onde a fé se encontra

Outro dia percebi que a fé não faz barulho quando chega.

Quem faz barulho somos nós, tentando explicar onde ela mora.

Ela pode estar numa igreja de portas abertas,

num centro silencioso,

num terreiro que pulsa,

num quarto escuro onde alguém chora sozinho,

ou numa mesa simples onde se reparte o pão,

sem discurso algum.

Há quem chame isso de religião.

Há quem chame de espiritualidade.

Há quem não chame de nada,

e ainda assim viva de um jeito que melhora o mundo.

Sempre achei curioso como gostamos de nomear o invisível.

Talvez para não nos perdermos.

Talvez para sentir que pertencemos.

Talvez por medo de aceitar que Deus, se existe,

não cabe inteiro em palavra alguma.

Eu estudo uma doutrina que fala de espírito,

de aprendizado,

de continuidade da vida

e de responsabilidade pelos próprios atos.

Mas, com o tempo, entendi que o mais importante,

não é o nome do caminho,

é o que fazemos enquanto caminhamos.

A fé de um se expressa em cânticos.

A de outro, em silêncio.

Há quem bata tambor.

Há quem feche os olhos.

Há quem questione tudo.

Há quem apenas faça o bem

e siga adiante.

E talvez todas essas formas estejam certas,

quando nascem do respeito,

do amor

e da tentativa sincera de ser melhor

do que se foi ontem.

Não me incomoda quem crê diferente.

Me incomoda quem usa a fé como régua

para medir o valor do outro.

Porque fé que exclui

não aproxima de Deus,

afasta do humano.

Religar, no fim das contas,

é menos sobre subir aos céus

e mais sobre descer ao encontro do outro.

É olhar o mundo com mais gentileza.

É perdoar quando possível.

É ajudar sem perguntar a religião de quem precisa.

Há ateus profundamente religiosos no gesto.

Há religiosos que ainda não aprenderam a amar.

E há uma sabedoria silenciosa

em quem não sabe explicar em que acredita,

mas sabe exatamente como cuidar.

A fé verdadeira, suspeito,

não quer palco.

Quer prática.

Ela se revela na escolha cotidiana

de não endurecer o coração.

De não devolver ódio.

De insistir na bondade

mesmo quando o mundo oferece atalhos mais fáceis.

No final, talvez todas as crenças

se encontrem no mesmo ponto simples,

o desejo humano de fazer sentido,

de reparar erros,

de amar melhor.

Seja qual for o nome dado a isso,

se houver mais amor do que julgamento,

mais cuidado do que vaidade,

mais humanidade do que certeza,

então a fé encontrou seu lugar.

E Deus,

se estiver por perto,

provavelmente sorri em silêncio.

Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 16/02/2026
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