Acordei hoje com o coração mais pesado do que o normal, não de tristeza exatamente, mas de consciência.
Tudo começou com uma mensagem sobre o Orelha. Bastou isso para abrir uma espécie de janela invisível dentro de mim. Uma lembrança puxou a outra, como se o mundo inteiro estivesse pedindo para ser visto de verdade.
Lembrei das pessoas que vejo dormindo na Avenida Brasil, improvisando camas sobre o chão de pedras pontudas, enquanto a cidade passa apressada ao redor. Lembrei de histórias de violência que nascem do medo e da desinformação, como quando animais são atacados por algo que nunca poderiam causar. Lembrei também de iniciativas bonitas, silenciosas, quase invisíveis, de gente que cuida da natureza, da vida e do futuro, como pequenas velas acesas no escuro.
A memória não parou por aí.
Vieram à mente momentos da história recente em que a vida humana parecia perder valor diante de opiniões, disputas e ironias. Vieram notícias de agressões contra pessoas que já carregam o peso de provar diariamente que merecem respeito. Vieram lembranças de quem vive nas ruas e, às vezes, sofre violências que mal conseguimos compreender.
E, no meio de tudo isso, percebi algo que talvez seja o mais assustador, a facilidade com que a dor pode virar rotina.
Quando a gente vê muitas vezes, corre o risco de parar de sentir. Quando a gente escuta sempre, corre o risco de não ouvir mais. A banalização do sofrimento não acontece de uma vez, ela chega devagar, quase sem pedir licença.
Mas, felizmente, a consciência também pode chegar assim, silenciosa, insistente, lembrando que nenhuma vida é descartável, nenhuma dor é insignificante, nenhuma diferença deveria ser motivo de desrespeito.
Talvez o que nos mantenha humanos seja justamente essa pequena inquietação que não nos deixa aceitar o sofrimento como algo normal. Essa capacidade de se incomodar. Esse impulso de cuidar, mesmo quando parece pouco.
Antes de o dia começar de verdade, entendi que não posso mudar o mundo inteiro sozinho, mas posso escolher não me acostumar.
E talvez seja assim que o amor trabalha, não permitindo que a dor do outro se torne banal dentro da gente.