Um contraponto necessário: quando a crítica abandona a pedagogia e abraça o panfleto.
A matéria publicada no Jornal Opção sob o título “Frank Laubach e Paulo Freire: o plágio atravessa fronteiras” não se propõe a analisar educação. Ela se propõe a deslegitimar um símbolo. E quando a intenção é essa, o rigor costuma ser o primeiro a cair.
Comecemos pelo ponto central da acusação: plágio.
1. Influência não é plágio é história da pedagogia
A alfabetização moderna não nasce do nada, nem pertence a um único autor. Métodos que partem do universo vocabular do aluno, da associação entre palavra e experiência, já estavam presentes em Decroly, Dewey, Pestalozzi e, sim, também em Frank Laubach.
Paulo Freire jamais negou influências. Pelo contrário: sua obra está repleta de diálogos explícitos com correntes pedagógicas, filosóficas e sociológicas. O que ele fez, e aqui está o ponto que incomoda, foi dar um salto qualitativo:
Laubach desenvolveu um método de alfabetização funcional, eficiente e meritório.
Paulo Freire desenvolveu uma pedagogia, ou seja, uma teoria da educação.
Alfabetizar não é o mesmo que educar.
Ensinar códigos não é o mesmo que formar sujeitos históricos.
Freire não “copiou” Laubach. Ele transcendeu a técnica e a inseriu numa leitura crítica da realidade brasileira e latino-americana.
2. Comparação enviesada: técnica missionária × pedagogia crítica
O texto elogia Laubach por sua vinculação cristã e sua defesa da “paz social”. Isso já revela muito.
A pergunta que Freire fez e Laubach não fez foi outra:
Paz para quem, construída sobre quais silêncios?
A pedagogia de Laubach não problematiza estruturas sociais.
A de Freire, sim.
E é exatamente aí que nasce o desconforto. Quando a educação deixa de ser apenas instrumento de adaptação e passa a ser ferramenta de leitura crítica do mundo, ela vira ameaça para quem sempre esteve confortável.
Chamar isso de “marxismo doutrinário” é uma simplificação grosseira e conveniente.
3. O argumento do “português ruim” e da desqualificação moral
Aqui a crítica desce de nível.
Atacar o estilo literário de Pedagogia do Oprimido ou insinuar que seus leitores “não leram o livro” não é argumento acadêmico, é retórica de desqualificação. A obra é discutida há décadas em universidades do mundo inteiro, inclusive em contextos não marxistas.
Freire é citado, estudado e debatido não por ser “ídolo da esquerda”, mas porque tocou em um nervo central da educação moderna, a relação entre saber e poder.
Se isso fosse irrelevante, ele teria sido esquecido.
Ideias vazias não atravessam gerações.
4. A falácia do “fracasso educacional brasileiro”
Talvez o trecho mais desonesto do texto seja responsabilizar Paulo Freire pelo estado atual da educação brasileira.
Isso ignora fatos básicos:
O método freiriano nunca foi política pública estruturante e contínua no Brasil.
A educação brasileira sofre com desigualdade social, descontinuidade administrativa, subfinanciamento e desvalorização docente.
A maioria das escolas segue modelos tradicionais, conteudistas e bancários, exatamente o que Freire criticava.
Culpar Freire pelo fracasso da educação é como culpar o termômetro pela febre.
5. Por que Paulo Freire incomoda tanto?
Porque ele fez algo imperdoável para certas elites,
ensinou que ninguém é naturalmente inferior.
Ele afirmou que:
o aluno pensa,
o pobre interpreta o mundo,
o oprimido produz saber.
E isso desmonta a pedagogia do privilégio, aquela que naturaliza hierarquias e chama obediência de mérito.
Não é sobre alfabetização.
É sobre quem tem o direito de nomear o mundo.
Conclusão: não é Freire que está em julgamento, é a ideia de educação como emancipação.
Frank Laubach merece reconhecimento histórico.
Paulo Freire também.
Colocá-los como antagonistas morais é falsear a história.
Acusar plágio sem comprovação documental rigorosa é leviandade intelectual.
Reduzir uma pedagogia complexa a “doutrinação” é medo travestido de crítica.
Paulo Freire não foi patrono da educação brasileira porque a educação fracassou.
Ele foi patrono porque ousou dizer que educação sem consciência é adestramento.
E isso, para alguns, é imperdoável.