Textos
Paulo Freire
Quando tentam colocar os problemas atuais da educação na conta de Paulo Freire, o que vemos não é uma análise honesta, é um atalho ideológico preguiçoso. Um bode expiatório conveniente para quem nunca quis, de fato, compreender o que ele propôs.
Paulo Freire não ensinou a bagunça, ensinou a consciência.
Não defendeu a permissividade, defendeu a responsabilidade crítica.
Não quis destruir a escola, quis libertá-la da lógica de adestramento.
Freire incomoda porque desloca o centro do poder.
Ele tira o monopólio do saber das mãos de poucos e devolve a palavra a quem sempre foi silenciado. E isso, convenhamos, assusta. Assusta muito.
A chamada Pedagogia do Oprimido nunca foi um convite à indisciplina, mas um chamado à dignidade intelectual. Ela parte de uma ideia simples, e por isso mesmo revolucionária:
Quem lê o mundo antes de ler a palavra aprende melhor a ler a própria palavra.
Freire contribuiu diretamente para a redução do analfabetismo funcional, porque entendeu algo que muitos ainda fingem não entender que:
ninguém aprende de verdade quando é tratado como recipiente vazio.
Educação não é depósito. É encontro. É diálogo. É construção.
O que hoje se chama, de forma desonesta, de “fracasso freiriano”, na verdade é o fracasso histórico de políticas públicas descontínuas, da desvalorização do professor, da escola sucateada e da insistência em um modelo que cobra pensamento crítico, mas pune quem pensa.
Confundir ideias revolucionárias com permissividade é uma estratégia antiga.
Serve para preservar privilégios.
Serve para manter tudo exatamente onde sempre esteve.
E aí surge o discurso da burguesia assustada, não com a perda do que é seu, mas com a possibilidade de perder o que nunca lhe pertenceu,
o direito exclusivo de interpretar o mundo.
Paulo Freire não ensinou ninguém a desrespeitar professores.
Ensinou a respeitar a própria inteligência.
Não ensinou alunos a “enfrentar” a escola.
Ensinou a habitar a escola como sujeitos, não como sombras.
Talvez a tristeza e a revolta que sentimos venham daí:
ver um pensador do amor, do diálogo e da esperança ser acusado justamente por aqueles que nunca suportaram dividir a palavra.
Freire não é o problema.
Freire é o espelho.
E espelhos, quando mostram verdades incômodas, costumam ser quebrados quase nunca refutados.
Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 24/01/2026
Alterado em 24/01/2026