Márcio Cerbella – Inspiração e Estratégia
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Textos

Sinos

Os sinos começam antes das pessoas.

Eles sempre começam antes.

Como se avisassem ao tempo que algo importante vai acontecer,

mesmo que ninguém saiba explicar exatamente o quê.

 

Estou na praia, na Ilha Grande.

O mar não está em festa,

mas também não está triste.

Está atento.

O céu, cinza e amplo, parece concordar com tudo em silêncio.

 

Hoje é dia de São Sebastião.

Daqui a pouco, a igreja vai se abrir por inteiro

e a fé vai sair caminhando pelas ruas,

vestida de passos, promessas, olhares e histórias

que não cabem em palavras curtas.

 

Não sou católico.

Minha fé mora em outros nomes,

outros gestos,

outros jeitos de conversar com Deus.

Ainda assim, respeito profundamente esse movimento

que faz o corpo seguir aquilo que o coração acredita.

 

Acho bonito quando o povo se move pela fé.

Mais bonito ainda quando a fé aceita ser carregada pelo povo,

com suas imperfeições, cansaços, esperanças remendadas

e essa insistência quase teimosa de continuar acreditando.

 

A amendoeira ali na beira da praia

hoje não precisa trabalhar muito.

O sol não exige sombra.

O dia pede apenas presença.

 

Choveu bastante de madrugada.

A terra ainda respira água,

as folhas ainda contam segredos molhados

e o ar carrega um frescor que parece recém-nascido.

 

Talvez chova de novo mais tarde.

Depois da procissão.

Ou talvez durante.

A chuva, como a fé, não costuma pedir autorização.

 

E mesmo que chova,

mesmo que o céu feche,

mesmo que o dia siga cinzento,

a fé continua.

 

Continua no passo lento de quem caminha.

No sino que insiste em tocar.

No mar que observa tudo sem julgar.

No respeito silencioso de quem não participa,

mas compreende.

 

Aqui, agora,

entre o som dos sinos e o rumor das ondas,

aprendo mais uma vez

que Deus entende muitas línguas,

aceita muitos caminhos

e permanece

mesmo quando o céu não abre azul.

 

A procissão vai passar.

A chuva talvez volte.

O dia seguirá seu curso.

 

E a fé…

essa não termina com a festa.

Ela apenas muda de forma

e continua andando por aí,

dentro de quem acredita,

e também de quem apenas observa,

em silêncio,

com o coração aberto.

 

Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 20/01/2026
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