A vida escorre pela tela
em capítulos editados,
conflitos embalados em trilha sonora
e emoções com horário marcado.
Enquanto isso,
o café esfria na xícara,
o sol bate na janela,
e a própria história fica em pausa...
Aguardando o próximo intervalo.
Vigiamos desconhecidos
como se fossem espelhos,
comentamos suas quedas,
apostamos em seus sonhos,
como quem terceiriza a coragem
de viver os próprios.
Tudo se observa.
Tudo se comenta.
Tudo vira opinião urgente,
menos o silêncio que pede escuta
e o coração que pede presença.
Ser feliz, talvez,
seja desligar a câmera invisível,
parar de competir com vidas editadas
e aceitar o roteiro simples
do que já se tem.
É dançar sem plateia,
errar sem enquete,
sonhar sem curtidas.
É trocar o espetáculo do outro
pelo bastidor da própria alma,
onde a vida não precisa ser interessante,
apenas verdadeira.
Porque no fim,
quem vive de assistir
acaba perdendo o episódio
mais importante,
o agora.