Aprendi, meio sem querer,
que o valor mora no simples,
igual passarinho que não precisa de escritura
pra chamar o céu de casa.
O que presta mesmo
é o amor servido quente,
a risada escapando da boca
sem pedir licença,
e até os tropeços,
esses professores sem diploma
que ensinam na marra e com afeto.
Ter coisas é bom, claro.
Não sou contra conforto,
nem contra um mimo aqui e outro ali.
Mas objeto nenhum
sabe fazer cafuné na alma
quando o dia aperta.
O apego, quando é do bem,
é memória que criou raiz.
É a roupinha pequena
que ainda conversa com a infância,
o vestido que jurou amor em voz alta,
a mesa que conhece de cor
as histórias contadas mil vezes e a mesma piada repetida como se fosse a primeira.
Ali não tem madeira,
tem riso empilhado,
cotovelo apoiado,
silêncio bom depois do almoço.
E a gente…
já carrega um punhado de ausências queridas.
Gente que virou estrela,
vento, saudade.
É estranho como a vida é simples
e óbvia,
mas nunca banal.
Foi assim com nossos pais,
com os pais deles,
e segue sendo conosco:
um fio invisível
ligando gerações
no mesmo novelo de amor e perda.
No fim, viver é isso,
andar descalço no essencial,
guardar o que tem história,
soltar o que pesa,
e seguir espalhando afeto
como quem planta sem saber
quem vai colher.
Porque tudo passa...
Mas o amor…
Esse fica fazendo sombra boa no coração de quem passou por nós...