Textos
Quando o Tempo Resolve Sentar
Há um momento da vida em que o tempo deixa de correr e resolve sentar ao nosso lado.
Não pede licença. Apenas senta.
E, curiosamente, é aí que tudo começa a fazer mais sentido.
Ser idoso não é sobre acumular anos, é sobre aprender a conversar com eles.
É perceber que o relógio continua no pulso, mas já não manda tanto assim.
A urgência se aposenta antes da gente.
A desaceleração revela coisas que sempre estiveram ali:
a luz atravessando a janela,
o sabor simples do café,
o valor de um silêncio bem acompanhado.
A beleza, tímida, só aparece para quem aprende a esperar.
Com o tempo vem uma sabedoria diferente daquela dos livros.
Não é a que vence discussões,
é a que evita brigas.
Não é a que ensina o caminho,
é a que caminha junto.
O olhar muda.
Fica mais macio.
Mais atento às dores invisíveis,
mais generoso com os tropeços alheios, talvez porque os próprios já não doam tanto.
Sorrir passa a ser um hábito, não uma reação.
Um sorriso que não ignora a dureza da vida,
mas escolhe não endurecer com ela.
E, ao contrário do que dizem, o sonho não se despede.
Ele apenas troca de roupa.
Sonhar deixa de ser sobre chegar longe
e passa a ser sobre estar inteiro.
Há também uma reconciliação bonita com o agora.
O que veio é suficiente.
O que não veio, tudo bem.
A vida deixa de ser promessa e passa a ser presença.
Experimentar continua fazendo sentido.
Errar também, só que sem drama.
Errar, nessa fase, vira aprendizado rápido e riso fácil.
E então, sem alarde, a gente continua.
Não por teimosia,
mas por gratidão.
Continua porque estar aqui ainda é bom.
E quando o tempo senta ao nosso lado,
descobrimos que viver, no fim das contas,
é apenas isso,
ficar.
Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 16/01/2026
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