Havia um caderno
que não ensinava nada,
mas dizia tudo.
Nele, a vida cabia em carimbos:
*PRESENTE*
*FALTOU*
*ATRASADO*
e aos sábados e domingos, o sistema dormia.
Uma caneta azul
vigiava nossas manhãs e tardes,
e à noite era interrogada em casa
como se fosse delatora oficial da infância.
Por que faltou no dia 11?
Por que atrasou no 23?
Ali não cabiam histórias,
febres inventadas,
chuvas internas,
nem o cansaço de crescer.
A carteirinha não queria saber
se aprendemos a dividir o lanche,
se descobrimos o mundo,
se sobrevivemos ao recreio.
Ela só queria ordem.
Linha reta.
Plano cumprido.
Sistema intacto.
Um Big Brother sem câmeras,
mas com assinatura do responsável
no rodapé da obediência.
Cinquenta e tantos anos passando de mão em mão,
treinando gente
a caber em quadradinhos
antes mesmo de sonhar fora deles.
Hoje estampam isso em camiseta
e chamam de nostalgia.
Eu chamo de espelho.
Porque toda vez que alguém diz
“era assim mesmo”,
a carteirinha sorri
e carimba de novo:
PRESENTE. Ou não...