Márcio Cerbella – Inspiração e Estratégia
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Brincar e velejar...

Às vezes dá vontade de tirar o relógio do pulso e colocá-lo para dormir um pouco. Não por rebeldia contra o tempo, mas por cuidado com a alma. Voltar a ser criança começa nesse gesto invisível de desacelerar por dentro, mesmo quando o mundo insiste em correr maratona de ansiedade.

 

Criança não tem pressa de entender tudo. Ela se aproxima, observa, pergunta, testa, erra bonito e tenta de novo. Reconhece o valor das coisas simples sem precisar justificá-las. Uma concha pode ser universo. Um galho vira espada, vara de pescar ou ideia. Aprender, para a criança, é brincadeira séria, daquelas que fazem o olho brilhar e o coração bater um pouco mais feliz.

 

Talvez por isso velejar se pareça tanto com reaprender a infância. No mar, não adianta gritar ordens nem impor vontades. O vento não obedece, mas conversa. O barco não corre sozinho, mas responde quando a gente aprende a escutar. É tudo muito sutil, um ajuste pequeno na vela, um corpo que sente antes de pensar, um silêncio atento que entende mais do que qualquer manual.

 

Ninguém veleja com o vento que gostaria. Veleja-se com o vento que há. E o equipamento também não é o dos sonhos, é o possível. O que está ali, disponível, esperando cuidado, respeito e curiosidade. Aos poucos, a gente vai entendendo como usar melhor o que tem, sem pré-conceito, sem heroísmo, sem pressa de chegar. Só navegando.

 

Aprender assim é gostoso. Dá vontade de comemorar cada pequena conquista, mesmo que ninguém veja. Um nó bem feito, uma rota ajustada, um erro que ensina mais do que acerta. Vibra-se com pouco, porque pouco já é muito quando se está presente.

 

Voltar a ser criança talvez seja isso: não abandonar a maturidade, mas convidar a leveza para sentar no leme. É continuar perguntando “como funciona?”, mesmo depois de adulto. É respeitar o mar da vida sem a ilusão de controle, confiando que sempre há algo novo para aprender com os ventos , inclusive quando eles mudam de ideia no meio do caminho.

 

E assim a gente segue… velejando, brincando de aprender, aprendendo a brincar, esperançando sem alarde, sem promessas grandiosas. Só mantendo o olhar curioso, a vela aberta e o coração disposto a sentir.

Marcio Cerbella
Enviado por Marcio Cerbella em 12/01/2026
Alterado em 12/01/2026
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