No alto do morro verde
Ou à beira do mar aberto,
Quando o mundo vai maldoso
E o meu dia vai tão certo,
A culpa vira pergunta
E o conforto fica incerto.
Como enxergar a opressão
De quem só conhece o chão,
Se meus pés pisam descanso,
Rede, fruta e mansidão?
Ver de fora dói por dentro,
É espelho sem proteção.
A dor não grita igual pra todos,
Tem fome que é silenciosa,
Tem guerra vestida de ordem,
Com fala mansa e enganosa;
Ambição pinta de bem
A face mais perigosa.
E eu aqui, com voz e verbo,
Com palco, papel e ideia,
Pergunto ao vento e às árvores
Qual é a minha plateia:
Calado viro paisagem,
Falando viro centelha.
Esperança não se acha
Em frase pronta ou sermão,
Ela nasce quando escuto
Antes de dar solução;
Otimismo sem escuta
É só vaidade em ação.
Meu poder não é convencer,
É provocar reflexão,
É abrir fresta na muralha
Sem posar de salvação;
É dizer: “não sei tudo, não”,
E ainda assim, dar a mão.
Que minha fala seja ponte,
Não palanque nem espada,
Que leve luz sem ofuscar
Quem já vive na madrugada;
Às vezes, ser esperança
É só não virar as costas pra nada.
E se o mundo insiste em guerra
Com ternura eu vou lutar:
Usando a palavra viva
Pra incomodar, acolher, cutucar;
Quem tem voz não grita ordens...
Semeia perguntas no ar.