No terreiro das conversas,
alguém pergunta:
“Tem muitas frutas por lá?”
E a pergunta já nasce com sabor,
como quem colhe sol com as mãos.
Outro sonho chega logo atrás,
confessando o prazer de andar descalço,
sentir a terra respirar debaixo dos pés,
enquanto o pai lá da roça aconselha cuidado,
pois entre folhas e silêncios
às vezes serpenteia uma coral.
Então respondo, sorrindo pro vento:
Faz tempo que não vemos cobra por aqui.
Tem um guardião de chapéu de palha,
um senhor que cuida do sítio
e mantém tudo limpo como manhã de domingo.
E frutas… ah, as frutas!
Jaboticaba que explode doçura,
acerola tímida,
laranja rindo de gomos abertos,
limão travesso,
mamão que se entrega fácil,
cajá lembrando infância,
abacate generoso,
urucum pintando o mundo,
coco contando histórias de mar.
Tudo brota como quem agradece.
E eu, mesmo pesando memórias e quilos,
ainda insisto em andar descalço.
Foi assim que ensinei minhas filhas,
a pisar leve,
como se cada passo fosse
um truque de mágica
capaz de transformar o chão
num lugar encantado que nunca machuca.
Hoje repito o feitiço com minha netinha,
que pisa miudinho,
olhos brilhando,
como quem ouve a terra sussurrar,
“Vem… o mundo é macio quando a gente toca com o coração.”