No meu balaio de rimas
Trago sonho e brincadeira,
Um punhado de ditados
E esperança hospedeira;
Se quiser vir caminhar,
É só entrar na fileira.
Dito antigo é ferramenta,
Às vezes vira tropeço,
Mas quem leva com alegria
Já começa no começo;
Se o adágio entorta a linha,
Desentorto no apreço.
Sonhar é coisa bonita,
Mas dá trabalho de mão,
É plantar ideia miúda
E regar com coração;
Quem constrói o próprio rumo
Vira dono da direção.
Eu também fui caminhante
Com medo de tropeçar,
Mas descobri que o tropeço
Ensina a se levantar;
Quem vive só na promessa
Nunca aprende a começar.
Diz o povo lá da feira
Que arriscar é petiscar,
Quem fica só calculando
Vê o tempo desandar;
Sonho bom pede coragem
Pra sair do mesmo lugar.
Arrisquei vender um doce,
Mas errei na medição,
O açúcar virou pedra,
Quase perdi o fogão;
Mesmo assim petisquei riso,
Que é lanche do coração.
O povo ainda me dizia
Com risada bem arisca:
“Quem não arrisca não come,
Só belisca o que petisca!”;
Aí botei fé no dito
E fui brincar de conquista.
De grão em grão fui juntando
Os pedaços da vontade,
Um sonho aqui, outro ali,
Tudo em boa humildade;
Que galinha inteligente
É a persistência da verdade.
Juntei grão de paciência,
Juntei grão de inspiração,
Juntei grão de quem acredita
Mesmo quando diz que não;
E até grão de trapalhada
Virou riso e solução.
Assim, passo após passo,
Fui moldando meu papel,
Uns dias eram de sombra,
Outros de puro mel;
Mas quem junta cada grão
Levanta o próprio cordel.
Veio o dito da pedra dura
E sua água insistente,
Mostrando que a persistência
Doma até o mais valente;
Quem sonha com insistência
Vira pedra inteligente.
Teve dia que eu tentei,
Mas a coisa deu errado,
A ideia escorregou,
O plano saiu entortado;
Quase larguei minha trilha,
Mas voltei reorganizado.
Recolhi minha coragem,
Refiz tudo sem temer,
Bati com água macia
Pra ver a pedra ceder;
E não é que a teimosia
Fez o sonho florescer?
Foi aí que o povo amigo
Começou a aparecer:
Um trazia uma palavra,
Outro vinha só pra ver;
E na soma das presenças
Vi meu sonho crescer.
Teve até o Zé da venda
Prestando colaboração,
Disse: “não sei muito não,
Mas ajudo com o feijão”;
E no gesto tão miúdo.
Ganhei força e motivação.
Quando a turma se juntou
Virou festa no terreiro,
Teve dica atrapalhada,
Teve conselho matreiro;
Mas no meio da zoeira
Brota ouro verdadeiro.
Diz o povo bem sabido:
“Quem procura sempre acha”,
E quem busca com carinho
Nunca volta mão a palha;
Cada passo investigado
É tijolo na fornalha.
Fui buscar uma saída
Pra um problema arretado,
Achei foi um gato manso
Dormindo no meu teclado;
E na bagunça do acaso
Veio o plano aprimorado.
Percebi que a caminhada
Mostra mais do que a visão,
Quem procura acha brilho
Onde tem escuridão;
E às vezes o que aparece
É melhor que a intenção.
Plantei amor no caminho,
Mesmo em solo desastrado,
Joguei riso, botei calma,
Deixei tudo adubado;
Pois carinho que se planta
Volta sempre iluminado.
E o que veio de retorno
Foi felicidade em flor,
Tinha fruta de esperança
E até cheiro de sabor;
Mas veio junto um cacho extra:
Com tarefas de amor.
No meio da caminhada
O cansaço quis bater,
Mas aprendi que no sonho
A gente precisa vencer;
E onde o peso aperta forte
Eu boto riso pra correr.
Foi aí que o povo disse:
“Canta alto, desafina!
Cantar espanta o azar,
Faz a vida mais menina”;
E eu cantei feito pardal
Na janela da rotina.
Cantei tanto que a tristeza
Pegou rumo apressada,
A inveja tapou os ouvidos,
A preguiça deu risada;
Só ficou mesmo a alegria
Dançando em roda animada.
Com a cantoria acesa
Meu peito ficou mais leve,
O caminho abriu clarões
Onde antes era breve;
Descobri que rir de si
É sabedoria que serve.
Mas teve dia de vento,
De quebranto e confusão,
Tempestade revirando
Tudo dentro do fogão;
Só que o dito me lembrava:
A calma vem logo irmão.
No clarear da bonança
Meu sonho ressuscitou,
Os pedaços que restaram
Num mosaico se juntou;
E o caminho que era barro
De repente firmou.
Diz o povo: “A ocasião
Faz o ladrão” na esperteza,
Mas eu digo: faz o mestre
Se ele estuda com firmeza;
Pois quem treina oportunidade
Ganha força e destreza.
E outra frase reinventei
Com graça e elegância:
“Quem com sonho fere o medo
Vence a própria ignorância”;
Pois coragem quando brota
Vira luz e relevância.
E assim fecho este cordel
Com meu riso companheiro,
Se quiser sonhar também
Seja o enredo primeiro;
Pois destino é construído
No passo leve e certeiro.