A Revolução dos Verbos
Poetizar é bagunçar o dicionário.
É virar cambalhota no alfabeto,
chupar uma bala de vogal até o fim e cuspir consoantes no teto.
É brincar com o ar que sai da boca, é vento rimado, suspiro acentuado,
é verbo que se pinta de cor e grita:
"não me conjugue, me sinta!"
O verbo quer dançar!
Quer sair do livro,
do quadro, do quadro-branco,
do quadro de horários!
Quer se jogar no chão da sala
e fazer coreografia com o chão,
com o chão que já cansou de ficar quieto ouvindo só passos de pressa.
O verbo quer brincar!
Quer enfeitar o céu de papel,
enfileirar sorrisos e soltar risadas de bolha.
Quer lutar contra o sério,
amar o riso,
gostar do caos,
estalejar o tédio até ele virar confete!
O verbo quer ser coisa viva.
Quer cantar, bailar, beijar, tropeçar, gozar,
sim, gozar de viver,
sem culpa, sem ponto final,
só vírgulas dançantes!
Quer se misturar ao corpo,
ser suor de palavra,
beijo de sílaba,
suspiro de som.
O verbo quer desobedecer!
Quer quebrar o espelho da gramática e fazer da sintaxe um parque de diversões.
Quer rir da norma culta,
vestir saia de metáfora e sair sambando pelos corredores do real.
Porque poetizar é insurgir,
é dizer "sim" quando tudo diz "não", é pintar o tempo com o pincel do agora,
é amar o verbo amar até ele corar.
E no fim…
Poetizar é brincar de ser humano.
É amar o impossível,
desenhar o invisível,
e rir com as estrelas porque elas também erram o passo às vezes.
Poetizar é dançar com o silêncio até ele falar em verso a liberdade de ser livre...
Simplesmente fluir...