Hoje lembrei daquela cantiga
que cantávamos em roda,
há uns cinquenta e tantos anos atrás,
quando a vida era só vento, poeira e gargalhada.
Criança feliz, quebrava o nariz,
tomava Sonrisal e ria da dor.
E a gente ria junto,
sem pensar em remédio, tempo ou partida.
Hoje tenho sessenta.
Já vi tanta gente ir embora,
amigos, amores, parentes,
e cada um levou um pedacinho de mim,
como quem leva uma pedrinha da infância no bolso.
Mas ao lembrar da cantiga,
senti um estalo de alegria:
aquela criança ainda está aqui,
quieta, risonha,
com o curativo torto no nariz,
fazendo bolhas de sabão com o tempo.
E talvez seja isso,
viver é continuar rindo,
mesmo quando o corpo pesa,
mesmo quando o coração sente falta.
Rir do inevitável,
brincar com a memória,
lembrar que o tempo também é menino
e que, no fundo,
ninguém envelhece de verdade.