O nada sentou-se na rede,
com o tempo escorrendo no canto da boca.
Nem pressa, nem rumo, nem sede,
só a brisa passando, mas bem pouca.
Fez nada de manhã,
e à tarde continuou.
À noite? Um espetáculo:
nada estrelou.
Pensou em pensar, mas pensou… “pra quê?”
Se o tudo já vinha com muita etiqueta.
Preferiu se perder no eu ou se derreter,
em doideira sem meta, sem seta, sem reta.
O relógio?
Virou caracol.
O mundo?
Um novelo de linha que desenrola só.
E no meio do tudo que gira e se cansa,
o nada dançou com a mais pura criança:
aquela que ri sem razão,
que pinta no chão,
que dorme no vão
do sofá da esperança.
O tempo de nada é um tempo encantado,
onde o ser se desfaz do ser ocupado.
É pausa, é respiro, é o avesso do mundo.
É quando o absurdo faz todo o sentido profundo.
Então… que nada se faça!
Que o tédio abrace!
Pois às vezes, na paz de não ser nem fazer,
é que a alma renasce.